Yara faz acordo com Galvani e amplia liderança no Brasil

Silvia Zamboni/Valor

Lair Hanzen, vice-presidente executivo da Yara Brasil: "Acordo complementa nossa capacidade de distribuição"

A disputa judicial entre a norueguesa Yara , uma das maiores empresas de fertilizantes do mundo, e a Galvani, fabricante de nutrientes derivados do fosfato, chegou ao fim com um desfecho considerado pelo mercado positivo para a empresa brasileira.

Na sexta-feira, a Yara anunciou que entrou em acordo com a família Galvani para adquirir 100% das ações da Galvani Indústria, Comércio e Serviços e encerrar uma disputa que já havia levado os antigos parceiros à Justiça.

Com o acordo, a subsidiária da Yara no Brasil, que lidera o mercado local de fertilizantes com 25% de participação, passará a deter 100% de dois ativos que contavam com a participação minoritária dos Galvani: uma unidade industrial em Paulínia, em São Paulo, e o projeto Serra do Salitre, em Minas Gerais, de produção integrada de nutrientes derivados do fosfato.

Pela participação minoritária dos Galvani nesses ativos, a Yara aceitou pagar US$ 70 milhões em dinheiro ao longo dos próximos três anos, além de um valor adicional condicionado ao desempenho do projeto Serra do Salitre. Este tem capacidade anual de produção de 1,2 milhão de toneladas de fosfato e 1,5 milhão de toneladas de fertilizantes acabados.

"O acordo foi muito importante para a família Galvani. Para a Yara, não muda muita coisa. Na prática, já controlava os ativos e já estava muito bem posicionada no mercado", disse uma fonte do segmento que preferiu não se identificar.

A Galvani surgiu na década de 1930 em São João da Boa vista, no interior paulista, como uma indústria de bebidas e empresa de transportes. Foi em 1983 que iniciou em Paulínia a implantação de um dos maiores complexos industriais de produção de fertilizantes do Brasil, envolvendo a fabricação de ácido sulfúrico, superfosfatos, granulação, mistura e ensaque de fertilizantes.

Em 1992, a empresa se instalou em Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia, inicialmente com uma fábrica de fertilizantes líquidos. Em seguida, construiu a primeira fábrica de superfosfato do Estado, uma planta de granulação e a segunda unidade baiana de sulfúrico, a única indústria de fertilizantes da região.

Em dezembro passado, três anos depois de vender 60% do capital da empresa à Yara por US$ 318 milhões -, a família Galvani iniciou uma disputa judicial contra a multinacional, alegando que cláusulas do acordo de acionistas estavam sendo desrespeitadas.

Pelo acordo, os representantes da família Galvani ficariam à frente do projeto após a venda das ações, mas em dezembro de 2017, os irmãos Rodolfo Galvani Júnior e Roberto Galvani foram afastados após acidentes ocorridos nas obras. Após o afastamento dos Galvani da liderança dos projetos, a família entrou com um processo contra a Yara na 2ª Vara Empresarial e de Conflitos de Arbitragem de São Paulo, que corria sob segredo de Justiça.

Conforme informou o Valor em janeiro deste ano, as partes discutiam a proposta de antecipar a opção de compra da Yara dos 40% do negócio que ainda estava nas mãos dos Galvani.

Com a venda de sexta-feira, a Galvani volta a ter praticamente os mesmos ativos que tinha em 1992. A família ficará com as operações na Bahia: uma unidade de produção em Luis Eduardo Magalhães e plantas em Angico dos Dias e Irecê, bem como um projeto greenfield em Santa Quitéria. Os ativos serão separados da Galvani Indústria, Comércio e Serviços e passarão ao controle total de uma nova empresa que será administrada pela família.

Esses ativos eram avaliados no fim de agosto em US$ 95 milhões. O acordo entre Yara e os Galvani terá de passar pelo crivo do Cade.

Desde janeiro fontes que acompanharam de perto o imbróglio já garantiam que o dívórcio, claramente um desejo da família Galvani, era só uma questão de tempo – e de valores.

"No fundo, os Galvani já tinham vendido o negócio. Restava receber pelos 40% remanescentes do negócio", disse uma fonte do setor.

"Esse acordo garante a propriedade total de ativos de produção importantes para a Yara Brasil, complementando nossa ampla capacidade de distribuição e alcançando uma posição ainda mais robusta no mercado brasileiro", disse Lair Hanzen, vice-presidente executivo da Yara Brasil, em nota.

Por Fernando Lopes e Kauanna Navarro | De São Paulo

Fonte : Valor