VOZES DO AGRO – Redução do biodiesel ao diesel provoca efeito cascata

Presidente da Aprobio, Francisco Turra diz que redução de 13% para 10% na mistura vai prejudicar Brasil no cumprimento de metas do Acordo de Paris

Tornou-se popular o dito de que “o bater de asas de uma borboleta no Brasil poderia causar um tornado no Texas”. O chamado “efeito borboleta” é uma premissa estudada na meteorologia e associada à teoria do caos. A ideia central desse pensamento é de que alterações simples em sistemas complexos podem levar a consequências incalculáveis e imprevisíveis.

Essa associação se aplica bem às recentes mudanças na política de biodiesel no Brasil. Há algumas semanas, a União reduziu o percentual de mistura do biodiesel no diesel, que passou de 13% para 10%. Embora pareça pequena, essa alteração tem um impacto de enormes proporções não apenas para o setor dos biocombustíveis, mas para diversas áreas de nossas vidas.

A começar pelo fato de que o biodiesel está no centro de uma cadeia produtiva que emprega mais de 1,5 milhão de pessoas no Brasil: são agricultores familiares, produtores rurais, agroindústrias de extração de óleo vegetal, indústrias de insumos químicos, entre outros. O biocombustível é obtido em 50 parques instalados em 43 municípios de todas as regiões.

Vozes - Francisco Turra, presidente do Conselho de Administração da Aprobio (Foto: Estúdio de Criação)

Esse setor gerou amplo desenvolvimento econômico, com mais de R$ 9 bilhões investidos no país. Além de trazer empregos e renda, também coloca o Brasil numa posição privilegiada na agenda sustentável: o biodiesel reduz em cerca de 80% as emissões de gases de efeito estufa em relação ao diesel fóssil, sendo fator essencial para o país cumprir as metas do Acordo de Paris.

E mais: desde 2008, diminuiu em 47 bilhões de litros a importação do combustível não renovável, substituído por uma fonte de energia ambientalmente segura.

É esse patrimônio que está em jogo com a redução da mistura. Estudos do setor mostram que a medida pode ter impacto severo na economia, com perdas de até R$ 24 bilhões e o fechamento de até 170 mil postos de trabalho. Para nosso PIB, haveria uma redução de R$ 8 bilhões. Um cenário aterrador, ainda mais considerando as graves dificuldades que já enfrentamos em virtude da pandemia.

Não é só isso: a queda na produção do biodiesel diminui a oferta de farelo de soja no mercado interno. Consequentemente, há maior custo para o setor de proteína animal, que utiliza esse insumo para a ração dos rebanhos. Os preços de carnes, ovos e produtos lácteos, já elevados, terão mais aumentos, prejudicando sobremaneira o custo de vida das famílias.

"Ainda há tempo de corrigir esse rumo, evitando prejuízos muito maiores, sobretudo nesse momento tão difícil que atravessamos"

Francisco Turra, presidente do Conselho de Administração da Aprobio

Com mais diesel na mistura dos combustíveis, há também maior emissão de poluentes. Um estudo da Empresa de Pesquisa Energética mostrou que, sem o uso do biodiesel, a concentração de partículas na atmosfera da metrópole de São Paulo seria 4,8% superior ao registrado em 2018. Ou seja: cresce também o prejuízo à nossa saúde, especialmente ao sistema respiratório, no momento em que enfrentamos a Covid-19.

Não foi por acaso que se construiu esse patrimônio. Montadoras e transportadores se unem contra mistura de biodiesel no diesel esforços de empreendedores, pesquisadores e autoridades, o Brasil desenvolveu uma cadeia altamente qualificada, tornando-se líder global na matéria de biocombustíveis. Isso demonstra como é possível conciliar crescimento econômico com sustentabilidade, apontando os caminhos para um futuro melhor para todos.

Uma simples decisão da União está provocando um tornado devastador não apenas para o setor, mas para a economia, a saúde e a vida de todos. Ainda há tempo de corrigir esse rumo, evitando prejuízos muito maiores, sobretudo nesse momento tão difícil que atravessamos. Preservar a força do biodiesel é essencial para o Brasil trilhar um caminho seguro no rumo do desenvolvimento.

*Francisco Turra é presidente do Conselho de Administração da Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (Aprobio), do Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) e ex-ministro da Agricultura

As ideias e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do seu autor e não representam, necessariamente, o posicionamento da Revista Globo Rural.

FRANCISCO TURRA*

Fonte : Globo Rural

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