Vitivinicultura: natureza e tecnologia juntas

Condições climáticas favoráveis são indispensáveis para garantir qualidade excepcional a uma safra.Mas é preciso mais do que isso. A vitivinicultura é produto da harmonia entre natureza e tecnologia – uma oferece o fruto perfeito, a outra possibilita que sejam extraídas dele todas as possibilidades.

O Brasil produz vinho há mais de um século. Pesquisas apontam que já havia cultura vitivinícola em território gaúcho pelo menos desde meados do século XVIII, quando portugueses trouxeram as primeiras mudas de videira para as regiões Sul e Meridional do Estado. Os imigrantes europeus, na segunda metade do século XIX, intensiicaram a atividade nas colônias, especialmente na serra gaúcha, transformando essa região no principal polo produtor da bebida no País. Grande parte das uvas produzidas pelos imigrantes, no entanto, eram as variedades chamadas de americanas, como as cepas niágara e isabel. O vinho resultante delas é o de mesa, que a gente, por aqui, chama carinhosamente de vinho da colônia, ainda muito apreciado por boa parte dos consumidores brasileiros. Essas uvas também são ideais para a produção de suco.

Vinho ino, elaborado com a variedade vitis vinífera, também não é novidade por aqui. Desde o início do século XX há registros de fabricação da bebida na serra gaúcha.

Exemplos são a extinta Vinícola Rio-Grandense, criadora da marca Granja União; e a Peterlongo, que, em 1915, já cultivava a uva moscato para a viniicação de espumantes.

Por elaborar a bebida pelo método tradicional, batizado de champenoise pelos franceses que o inventaram, a vinícola gaúcha passou a chamar seus rótulos de champanhe.

Até hoje, porém, o Rio Grande do Sul produz muito mais uvas de mesa do que viníferas: de acordo com os dados de 2019 do Cadastro Vinícola do governo do Estado, 88,5% das mais de 614 mil toneladas de uva produzidas.

Somente 11,5% eram da espécie vitis vinífera, destinada à produção de vinhos inos.

Entre as décadas de 1970 e 1980, uma crise assolou muitos produtores da Serra que vendiam uvas ou vinho de mesa a granel. Quase todo vinho produzido no Estado era de baixa qualidade, com pouco valor agregado, que perdia de relho quando confrontado com os importados.

Para tentar reinventar-se nesse cenário, muitas vinícolas foram qualiicando seu portfólio de produtos.

Aos poucos, as empresas foram per- Adriano Miolo investe em regiões além do Rio Grande do Sul JEFFERSON BERNARDES/DIVULGAÇÃO/JC cebendo que era preciso investir em tecnologia e pesquisa para enfrentar a concorrência. Não se sabia, à essa altura, do que o terroir gaúcho era capaz.

Uma das empresas que nasceu nesse momento foi a Miolo, depois de 90 anos da chegada do patriarca, Giuseppe Miolo, da Itália. A família plantava uvas e vendia vinho a granel no Vale dos Vinhedos quando, em 1989, fundou a marca e passou a investir em vinhos inos. Reconverter vinhedos para cultivar as variedades vitis vinífera e adquirir equipamentos modernos foram os primeiros desaios. Elaborar um produto de qualidade superior em um mercado dominado pelo vinho de mesa parecia uma aposta arriscada quando a empresa lançou o seu Reserva Merlot safra 1990. A contratação do famoso enólogo francês Michel Rolland como consultor foi um dos passos decisivos para abrir os caminhos que levariam à compreensão das possibilidades que o solo gaúcho poderia oferecer.

Hoje, 30 anos depois de lançar o primeiro Reserva, a Miolo explora regiões diversas do território gaúcho, além de produzir vinhos também no Vale do São Francisco.

Ao investir pesado em tecnologia e pesquisa, a marca comemora a chegada de uma safra excepcional no momento certo. “Tivemos um clima muito semelhante ao da safra de 2005, mas teremos resultados muito superiores. Há 15 anos, não havia a tecnologia e o conhecimento que temos hoje. Nossa aposta nas variedades certas para cada região permite que, agora, possamos extrair o máximo da safra 2020″, comenta Adriano Miolo, enólogo e superintendente do Grupo Miolo.

Para o presidente da ABE, Daniel Salvador, a tecnologia e os investimentos em pesquisa feitos nas últimas décadas são decisivos para que o setor possa aproveitar tudo o que a natureza produziu no vinhedo neste ano. Ele próprio enólogo da Vinícola Salvatore, de propriedade da sua família, testemunha o salto de qualidade proporcionado pela tecnologia e pela pesquisa. “Éramos produtores de vinhos a granel e dependíamos do sucesso das vinícolas grandes. Hoje, como tantas outras empresas, mudamos o foco, nos repaginamos para produzir bons rótulos. Essa virada está ditando a identidade do vinho nacional”, ressalta o presidente da ABE.

Fonte: Jornal do Comércio