Vítimas dos agrotóxicos

A luta dos apicultores para se defender dos danos causados a seus apiários por agrotóxicos aplicados, principalmente em lavouras de soja, vem de longe. O problema se agravou nos últimos anos.No início de 2018, foi criado um grupo de trabalho na Câmara Setorial de Abelhas da Secretaria da Agricultura do Estado para propor medidas em defesa da atividade.

Exercida junto à natureza, a apicultura mobiliza no Estado um total de 100 mil pessoas, entre criadores de abelhas, processadores, transportadores, comerciantes e técnicos – tudo isso sem contar os milhões de consumidores.

No entanto, mal começou a trabalhar, o grupo foi esvaziado por pressões ligadas à produção de agrotóxicos. A primeira vítima foi o coordenador da Câmara Setorial, agrônomo Nadilson Ferreira. Doutor em polinização, ele foi removido para outro setor da secretaria.

Em meados do mesmo ano, o cargo foi entregue ao apicultor Aldo Machado dos Santos, presidente da Cooperativa dos Apicultores do Pampa (Cooapampa), criada há 13 anos em São Gabriel e ainda sem condições operacionais por falta de alguns equipamentos. Natural de Lajeado, Machado vive em São Gabriel desde os tempos do serviço militar, quando conheceu o atual vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, ídolo na Terra dos Marechais.

Como a maioria dos apicultores que mantêm apiários em terras alheias, Machado dos Santos teve prejuízos causados pela aplicação abusiva de agrotóxicos. Com mais de 2 mil colmeias, sua empresa (Apiários São Gabriel) perdeu uma centena de caixas no verão de 2017/2018, quando os apicultores do Pampa foram vítimas de uma mortandade estimada em 3,6 mil caixas. Em vez de brigar, Machado procurou uma conciliação com o outro lado. “Se processar o fazendeiro, o apicultor vai ser obrigado a sair da terra dele”, justiica-se.

Após o verão de 2018/2019, quando a pulverização química destruiu 5,6 mil caixas de abelhas no Pampa, apicultores de Mata, na região de Santa Maria, promoveram um seminário técnico que resultou na abertura de inquérito do Ministério Público do Meio Ambiente, já que laudos técnicos provaram que as abelhas morreram por overdose de ingredientes ativos em biocidas agrícolas autorizados pelo Ministério da Agricultura.

O vilão da mortandade é o ipronil, inseticida cujo principal ingrediente ativo (um neonicotinóide) ataca o sistema nervoso central das abelhas, que se perdem no campo ou morrem na volta ao ninho.

Ainda não há decisão judicial sobre “o crime de Mata”, mas a Basf, fabricante do ipronil, já está recomendando a retirada da aplicação foliar do produto, segundo Machado dos Santos. Além de coordenar a Câmara Setorial de Abelhas, ele assumiu a presidência da comissão de apicultura da Farsul, que esteve reunida na primeira quinzena de março. Festejada em redes sociais, sua intimidade com os poderes político e econômico é motivo de desconforto entre dirigentes do associativismo apícola gaúcho, apegados a um viés estritamente técnico, e com uma inequívoca pegada ecológica. Ainal, as abelhas não fazem um produto comum. O mel é uma extraordinária síntese alimentar.

Fonte: Jornal do Comércio