Vistoria de chaminés monitora indústrias e controla emissões

Ana Paula Paiva/Valor / Ana Paula Paiva/Valor
Maria Cristina Poli: demanda deverá crescer quando as regulações do governo obrigarem o controle nas chaminés

Chova ou faça sol, subir ao topo de chaminés a uma altura que pode atingir 60 metros, com 80 quilos de equipamentos nas costas, é rotina para uma tropa de 15 homens da Cetesb, agência ambiental paulista, responsáveis por vigiar a fumaça das indústrias. Na manhã de 3 de abril, o trabalho se repetiu na usina termelétrica da Petrobras em Cubatão (SP), monitorada periodicamente para análise da poluição emitida na queima de gás natural que abastece com vapor e eletricidade a Refinaria Presidente Bernardes.

Com capacidade de 216 MW, a central tem porte suficiente para abastecer uma cidade de 800 mil habitantes. Ao alcançar o alto daquela estrutura, o técnico inseriu na boca da chaminé uma sonda capaz de sugar gases. O material particulado, como a fuligem, foi retido pelos filtros. Os demais poluentes atmosféricos, foram capturados em soluções líquidas. Todas as amostras seguiram para análise de laboratório.

É preciso preparo físico e, principalmente, cuidado com os ventos. Quatro equipes se revezam diariamente no trabalho, em duplas. Além dos gases, são também coletados dados sobre temperatura, umidade, teor de oxigênio e velocidade do ar. Em solo, outro auditor do grupo obtém informações sobre as operações e a capacidade produtiva da planta industrial. Na empresa farmacêutica Pfizer, em Guarulhos, o alvo naquela semana foi o incinerador de resíduos perigosos. Como a fábrica produz vacina para animais, as sobras da produção devem ser eliminadas por queima no local, sem riscos de contaminação de solo e água em caso de acidentes no transporte até algum aterro ou outro lugar para a destinação final.

No caso da fábrica da Basf, produtora de defensivos agrícolas e insumos químicos em Guaratinguetá (SP), a vistoria teve como objetivo a renovação da licença. Capaz de processar 3,6 mil toneladas por ano, incluindo resíduos hospitalares do município, o incinerador tem tecnologia alemã para tratamento de gases e é monitorado por sistema de controle que otimiza custos ambientais. "Nos últimos dez anos, conseguimos reduzir em 26% as emissões", informa o diretor de meio ambiente, Bert Neuneuer.

O Plano de Monitoramento de Emissões Atmosféricas, criado pelo governo estadual em 2005 e renovado em 2010, dá as regras do jogo para os testes das chaminés, obrigando inclusive a existência de escada para a subida até o topo. "Nenhum licenciamento é liberado sem avaliação do impacto no ar", garante Maria Cristina Poli, gerente do setor de qualidade do ar, da Cetesb.

Após a licença de operação, as indústrias solicitam auditoria, que se repete conforme a atividade produtiva. Refinarias e petroquímicas, por exemplo, são inspecionadas anualmente. Setores que emitem chumbo, a cada seis meses. Fora essas situações especiais, a coleta e análise rotineira de amostras em laboratório, conforme manda a norma, são de responsabilidade de empresas especializadas, contratadas pelas indústrias. A agência ambiental faz a auditagem dos dados e a calibração dos aparelhos de medição.

O órgão ambiental tem apenas um agente para cada 100 indústrias prioritárias para o controle da poluição atmosférica no Estado. O foco do controle são os poluentes de efeito local, como material particulado, dioxinas, compostos orgânicos, metais e, principalmente, óxidos de enxofre e nitrogênio. Esses são liberados nos processos de queima em usinas de açúcar e álcool, incineradores e outras atividades industriais, contribuindo com o aumento do ozônio no ar. Segundo Poli, também as emissões de impacto global, como dióxido de carbono, metano e outros gases do efeito estufa, hoje não aferido, em breve precisarão de monitoramento. A demanda deverá crescer quando as regulações do governo sobre clima obrigarem o controle diretamente nas chaminés.

Em São Paulo, o centro das atenções está nos poluentes que aumentam o ozônio, capaz de causar doenças respiratórias e prejuízos na produção agrícola. "É a contaminação que ultrapassa com maior frequência os limites aceitáveis", atesta Carlos Eduardo Kamatsu, gerente de qualidade do ar da Cetesb. "Falta uma política específica para as fontes dessas emissões, de fornos à lenha de pizzarias até grandes caldeiras industriais", diz Kamatsu. O problema é agravado pelas condições climáticas atípicas, principalmente no fim da primavera e começo do verão. A indústria é responsável por 68% das emissões de dióxido de enxofre. Em 2012, o órgão ambiental emitiu 202 advertências e multas referentes à poluição ar.

© 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico.
Leia mais em:

http://www.valor.com.br/empresas/3092700/vistoria-de-chamines-monitora-industrias-e-controla-emissoes#ixzz2QudMmg1N

Fonte: Valor | Suplemento – Negócios sustentáveis | Por Sergio Adeodato | Para o Valor, de São Paulo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *