Visão integrada

As empresas têm evoluído quando o assunto é sustentabilidade. O desafio agora é se aprofundar em questões que, de modo geral, ainda são tratadas superficialmente e mensurar os resultados individuais em diferentes setores. "Hoje o plano de sustentabilidade ganha a mesma importância do balanço financeiro na nossa estratégia de negócios", diz o presidente da Unilever do Brasil, Fernando Fernandez.

Nessa nova fronteira, tudo caminha para que as áreas de finanças e de sustentabilidade se integrem. O que se vê ainda hoje nas prestações de contas das companhias para a sociedade não chega nem perto do que devem tornar-se num futuro não tão distante. Nos bastidores, os debates entre os atores envolvidos nos processos já avançam pela mudança na forma de divulgação de resultados trimestrais e até pelo cálculo do Produto Interno Bruto, como se vê atualmente.

"Ainda lidamos com relatórios conjugados e não integrados, mas a maneira de se fazer negócio vai mudar juntamente com o conceito de valor de mercado", avalia o diretor de sustentabilidade e relações corporativas da Fibria, Carlos Alberto Roxo. "Não há alternativa. Transformações causadas pelas mudanças climáticas implicarão custos e dificuldades para implementar a governança global", afirma Roxo.

Fibria e Unilever são exemplos de companhias que têm avançado consideravelmente a partir das metas traçadas com o objetivo de atender os anseios socioambientais e econômicos, sem perder a finalidade do seu negócio: a lucratividade. Com um faturamento de R$ 13,6 bilhões, a subsidiária brasileira da gigante inglesa de consumo trabalha alinhada a uma estratégia global de dobrar de tamanho até 2020 e reduzir pela metade os impactos ambientais.

De 2011 para 2012, para citar alguns números, houve redução de 12% no consumo relativo de água após mudanças na operação e na gestão de fábricas, quando a meta era de 5%. Em um ano, a Unilever também zerou o envio de resíduos sólidos para aterros em quatro fábricas. São pequenas mudanças que começam a ganhar escala, mudar a cadeia de valor e o comportamento do consumidor. Algo que tem feito toda a diferença nos resultados de uma companhia que acredita ser essa a única forma de sobrevivência.

Outro exemplo é a inauguração da primeira fábrica feita toda sob o conceito sustentável. A planta de Aguaí, interior de São Paulo, décima no Brasil e uma das 30 que a companhia planeja implantar no mundo nos próximos três anos, deve se tornar referência na cadeia produtiva de sorvetes e de produtos para cabelo. Inovar em produtos, distribuição e pós-consumo, além de despertar a consciência do consumidor por meio do alcance das marcas estão ainda entre os desafios propostos para os próximos anos.

Um sinal dessa tendência são os produtos concentrados, que economizam água na fórmula, têm embalagens menores e 100% recicláveis, e reduzem emissão de CO2 porque necessitam de menos caminhões para o transporte. O Omo, marca "top of mind", dará o pontapé inicial de uma campanha para convencer que o custo-benefício do concentrado é maior.

Nessa mesma pegada, a Natura, que mantém a plataforma de inovação na biodiversidade desde o lançamento da linha Ekos, lançou uma linha especial de produtos voltada para o mercado mais popular. A marca "Sou" custa menos do que a média e sua embalagem é confeccionada com 70% menos plástico, flexível e muito semelhante a um refil, além de ocupar menos espaço nas fábricas e centros de distribuição. A intenção é baratear a logística e evitar desperdícios de matéria-prima e energia.

Em julho, os xampus, sabonetes líquidos e hidratantes corporais da marca vão invadir as prateleiras. A ideia da Natura é que, até o final do ano, a linha completa – composta por 27 itens – esteja no mercado. "O objetivo é contaminar de forma positiva para que outras marcas façam o mesmo", diz a diretora de sustentabilidade da Natura, Denise Alves.

O Programa Amazônia é outro exemplo de mudanças no relacionamento com as comunidades. "A resposta do que fazíamos lá era tímida diante das necessidades", diz Denise. Agora, até 2020, a Natura vai aumentar de 1,4 mil para até 12 mil famílias fornecedoras de matérias-primas da biodiversidade brasileira. Vai construir um Centro de Conhecimento em Manaus, montar um Parque Industrial em Benevides, no Pará, atrair novos negócios verdes para a região e movimentar até R$ 1 bilhão de recursos para fomentar a iniciativa, que tem como objetivo transformar a região em um grande polo mundial de inovação, tecnologia e sustentabilidade.

A relação com as comunidades é um desafio também para a Fibria. Licenças ambientais não foram suficientes para a empresa conseguir tocar seu negócio no sul da Bahia, segundo Roxo. "A saída foi contratar gente especializada, como agrônomos e antropólogos, que puderam apoiá-las para que se tornassem autossustentáveis", diz o diretor.

Entre as vitórias destacadas por ele está a resolução de conflitos importantes como o acordo firmado para o assentamento de 1,2 mil famílias do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) em uma área de 12 mil hectares que pertencia à empresa, iniciativas conjuntas para o combate da máfia de carvão no sul da Bahia e desapropriação e devolução de terras indígenas.

Ciente de que a sustentabilidade é dinâmica, Roxo indica outra área prioritária ao lado da social, cuja evolução é mensurada e auditada tal qual a ambiental e econômica. Até 2025, a Fibria planeja reduzir em um terço a quantidade de terra necessária para a produção de celulose. Ou seja, de 10 toneladas de celulose/hectare/ano para 15 toneladas/hectare/ano, por meio de melhoramento genético, melhor gestão florestal e aumento na produtividade industrial. Também ambiciona atingir 80% da aprovação das comunidades vizinhas. Hoje esse percentual é de 50%. "Metas têm de ser ambiciosas", finaliza.

A diretora de sustentabilidade do Walmart Brasil, Camila Valverde, concorda com Roxo. "As coisas não acontecem de uma hora para outra e temos de saber esperar o tempo de maturação."

Ela fala com a propriedade de quem começa a colher os frutos de um ano e meio de dedicação a um dos maiores projetos da cadeia pecuária do país. Trata-se de um sistema de monitoramento e gestão de risco da carne bovina que integra em um mesmo sistema dados de georreferenciamento que mapeiam desmatamento, terras indígenas e unidades de conservação com informações de listas públicas de áreas embargadas e trabalho escravo. São parceiros no projeto os frigoríficos JBS e Marfrig, além da ONG TNC (The Nature Conservancy).

"É um passo enorme do varejo em busca de uma cadeia da carne mais sustentável", comenta Camila. Mas essa é só a ponta do iceberg. "Temos 60 mil itens de diferentes fornecedores à venda e uma conta ambiental enorme, por isso temos de atacar todas as frentes simultaneamente."

Outra iniciativa mais antiga que tem dado bons resultados é o Clube dos Produtores, programa de relacionamento do Walmart Brasil com a agricultura familiar, que fechou 2012 com 10.560 famílias, localizadas em 12 Estados brasileiros e aproximadamente R$ 200 milhões em compras.

Hoje, mais de 20% das vendas de hortifruti do Walmart Brasil são do Clube dos Produtores. Apenas no Sul, esse número salta para quase 30%. Em 2013, haverá aumento da região de abrangência do programa, com o lançamento em mais três Estados.

"Nem todas as perguntas estão respondidas, mas as empresas cada vez mais tentam internalizar as externalidades do meio ambiente", afirma o consultor Fabio Beltrame, da Control Union Certifications. Trata-se de uma associação certificadora de origem holandesa que atua no mercado internacional há mais de 20 anos, com milhares de projetos certificados nas áreas de agricultura, pecuária, apicultura, insumos, bebidas e produtos têxteis.

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Fonte: Valor | Por Rachel Cardoso | Para o Valor, de São Paulo

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