Virada à vista na balança do etanol

Robustas nos primeiros sete meses do ano, as exportações de etanol do Brasil, que alcançaram quase US$ 1 bilhão no período, tendem a arrefecer daqui para frente, sobretudo com o fechamento da ‘janela’ de embarques aos Estados Unidos. O país é o destino de cerca de 85% do biocombustível exportado pelo Brasil. Desde julho, praticamente não houve novos contratos de exportação firmados.

Os preços do biocombustível no mercado dos Estados Unidos já recuaram 12% desde o início de julho, pressionados pela confirmação de uma grande safra de milho – matéria-prima do etanol americano. Além disso, ainda há indefinições sobre o tamanho do mandato (compromisso de uso) de biocombustíveis nos Estados Unidos, o que segue pressionando até o valor dos prêmios pagos pelo etanol brasileiro – considerado avançado – no mercado americano.

A diferença entre os prêmios pagos pelo etanol convencional (milho) e o avançado (cana) é que determina o prêmio final pago ao etanol brasileiro. Há cerca de dois meses, essa diferença está estagnada entre 11 e 12 centavos de dólar por galão (3,785 litros), valor que no ano passado já chegou a 60 centavos. "Para a reabrir a ‘janela’ americana, esse spread tem que ser de, pelo menos, 30 centavos de dólar por galão, considerando os preços atuais e o câmbio de R$ 2,30", diz Tarcilo Rodrigues, diretor da Bioagência, uma das maiores comercializadoras do país.

Assim, exportar neste momento significa receber menos do que se a venda fosse feita no mercado interno, explica o consultor de gerenciamento de risco da FCStone, Thiago Gil. A exportação de etanol aos Estados Unidos significaria à usina atualmente um retorno de R$ 1,016 mil por metro cúbico (sem impostos), ante R$ 1,26 mil (sem impostos) recebidos se a venda do mesmo combustível fosse feita no mercado interno (etanol anidro).

"Em agosto do ano passado, a relação estava muito mais vantajosa para a exportação. A usina tinha uma receita nessa operação de R$ 1,390 mil por metro cúbico, R$ 170 a mais que no mercado interno", compara Gil.

Assim, os últimos contratos de exportação de etanol do Brasil aos Estados Unidos foram fechados em junho, para um volume que ainda deve ser embarcado em agosto. A estimativa da Bioagência é que mais cerca de 300 milhões de litros ainda sejam embarcados neste mês.

As usinas do Brasil que conseguiram aproveitar a última ‘janela’, explica Rodrigues, tiveram um ganho 5% acima do valor pago no mercado interno. Este segue pressionado por uma produção de etanol que deve crescer 18% na região Centro-Sul do Brasil, que concentra 90% da produção de cana do país.

O executivo da Bioagência explica que a Agência de Proteção Ambiental americana (EPA, na sigla em inglês) ainda não publicou o mandato de biocombustíveis para o ano de 2013. Dessa definição, depende os movimentos dos prêmios pagos ao etanol pelos Estados Unidos, por isso, ainda não é possível afirmar se uma nova janela poderá ou não se abrir ao produto brasileiro nos próximos meses.

As exportações de etanol para todos os destinos até julho deste ano só não superaram as do mesmo período de 2007, quando o Brasil embarcou 2,5 bilhões de litros ao exterior e obteve receita de US$ 1,1 bilhão. Nos primeiros sete meses de 2013, foram exportados 1,5 bilhão de litros do biocombustível por US$ 995 milhões, aumento de 50% em volume e 28% em receita.

Há ainda um outro risco associado à tendência de preços mais baixos do etanol de milho nos Estados Unidos. Se os preços do etanol no Brasil subirem na entressafra – entre dezembro e março -, como comumente ocorre, pode haver viabilidade econômica para importar o bicombustível mais barato dos Estados Unidos ao Brasil, segundo o especialista da FCStone. A última vez que isso ocorreu foi na safra 2011/12, quando o país importou mais de 1 bilhão de litros.

Segundo cálculos do mercado com base nos contratos futuros de etanol para dezembro na bolsa de Chicago (CBOT), o biocombustível importado dos EUA entra no mercado do Nordeste a menos de R$ 1,40 por litro, encostado nos preços futuros para a região, que indicam o valor de R$ 1,40 por litro para dezembro. Dependendo do comportamento do câmbio e dos prêmios para o etanol avançado e convencional nos Estados Unidos, essa equação pode mudar.

O diretor da Bioagência esclarece, no entanto, que o mercado de anidro – tipo de etanol mais transacionado entre países – no Brasil já está 90% contratado antecipadamente pelas distribuidoras de combustíveis. Assim, o espaço para importação é de 10% desse mercado. "Não acredito que poderá haver margem para importação de hidratado, pois é necessário um reprocessamento que encarece muito o produto final", diz Rodrigues.

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Fonte: Valor | Por Fabiana Batista | De São Paulo

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