Vinícolas de Portugal e Argentina disputam o Brasil

Nos últimos anos Portugal tem disputado a segunda posição no ranking de vinhos importados mais vendidos no Brasil. Já conquistou o posto, caiu para terceiro lugar e se recuperou novamente. Os dados mais recentes da Ideal Consulting indicam um mercado de importação estável em 2018, que em termos de volume dá 46,2% para os vinhos do Chile, 16% a Portugal e 13,8% à Argentina.

Essa disputa, no entanto, é uma falsa questão para Dominic Symington, que possui 28 propriedades no Douro, em Portugal, e várias vinícolas, entre elas a Graham’s: "A Argentina sempre terá vantagens por estar na zona do Mercosul. O custo de transporte é inferior e, como Portugal faz parte da União Europeia, os acordos são feitos entre UE e Brasil, e não de forma bilateral de forma a favorecer as relações luso-brasileiras."

Já os vizinhos argentinos estão preocupados com o futuro das relações do Brasil com o Mercosul, a ser delimitado pelo governo Bolsonaro. "É necessário manter certos benefícios que incidem no comércio de vinhos", diz Otávio Lilla, sócio da Importadora Mistral. "Argentina, pelo Mercosul, e Chile, por acordos bilaterais, não pagam 27% de imposto de importação, ao contrário do que acontece com os vinhos europeus", disse. Caso haja uma mudança nas regras, a despesa com a nova tarifa seria repassada ao consumidor.

O mercado brasileiro é fundamental tanto para argentinos quanto portugueses. Nas vendas globais da Symington, o Brasil vem logo atrás de Portugal, com uma exportação que soma cerca de € 1 milhão por ano.

Em sua recente passagem por São Paulo, o argentino Nicolás Catena, proprietário da tradicional vinícola Catena Zapata, falou ao Valor sobre a importância do Brasil para suas vendas, especialmente em função do momento econômico que a Argentina atravessa. "Estamos acostumados a essas crises macroeconômicas, que ocorrem mais ou menos a cada dez anos", disse.

A política da Catena Zapata é conservadora, segundo o empresário. "As empresas que sobrevivem são as que antecipam esses acontecimentos e organizam suas finanças de um modo extremamente conservador. Desde os tempos de meu avô (Nicola, o fundador da empresa) adotamos a ideia de que fazer investimentos com dívida bancária não é aconselhável. Assim, conseguimos sobreviver e crescer por mais de um século", afirmou.

Para a Mistral, que importa essa marca de vinho argentino, a manutenção dos acordos com o Mercosul também é relevante. Apesar de ter um portfólio diversificado, 45% das vendas são de vinhos chilenos e argentinos.

O Brasil, antes da recessão, iniciada em 2014 e que durou dois anos, chegou a ser o maior mercado para os vinhos mais caros da Catena Zapata. Hoje, é o terceiro maior, depois de Estados Unidos e da Argentina. "A crise prejudicou vinhos caros em geral e o consumidor desceu um degrau pela própria desvalorização da moeda. Mas os rótulos da linha cara da Catena caíram nas graças dos brasileiros", lembra Lilla.

Recentemente, a vinícola lançou vinhos de parcela (de uma parte do vinhedo) que foram considerados os primeiros Grands Crus (a mais alta classificação) da América do Sul. São quantidades muito pequenas, entre 45 e 180 garrafas, que chegam ao Brasil anualmente já reservados.

Nessa lista há ícones com restrição de venda de uma garrafa por pessoa. É o caso do Catena Adrianna River Stones (R$ 647,42), ou do Catena Adrianna Mundos Bacillus Terrae (R$ 2.352,20). Esses rótulos estão com um crescimento surpreendente nas vendas na China.

Para o consumidor brasileiro médio, para quem preços como esses estão fora de alcance, o grande interesse continua sendo a famosa equação custo-benefício. E, diante disso, apesar do favoritismo de preço do vinho argentino, muitas vezes essa vantagem não se traduz em qualidade. Mesmo com carga tributária mais elevada, há vinhos portugueses que agradam mais numa faixa de preço bastante semelhante.

Também na expectativa da política econômica que norteará o Brasil nos próximos anos, Dominic Symington diz que, caso traga estabilidade, o novo governo pode ser benéfico para os negócios. "Mas um país envolvido num escândalo atrás do outro afasta o investimento internacional", diz ele, que veio a São Paulo já na preparação do evento Vinhos de Portugal, de 31 de maio a 9 de junho.

Por Maria da Paz Treffaut | Para o Valor, de São Paulo

Fonte : Valor