Vendas do campo ao Irã em risco

A tensão geopolítica causada pela saída dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã poderá trazer impactos ao financiamento das exportações do agronegócio brasileiro àquele país. O Brasil é o maior fornecedor de soja, milho, carnes e açúcar para os iranianos. No ano passado, as exportações do agronegócio ao país do Oriente Médio renderam US$ 2,2 bilhões.

Na avaliação do governo brasileiro, a polêmica medida tomada pelo presidente Donald Trump deve agravar o embargo financeiro ao Irã. A consequência seria o aumento das travas financeiras que os bancos americanos já impõem às transações comerciais envolvendo os bancos brasileiros com empresas brasileiras e iranianas.

O embaixador do Brasil no Irã, Rodrigo de Azeredo Santos, explica que muitos bancos brasileiros de grande porte são impedidos hoje de operar no Irã devido às cláusulas contratuais firmadas com instituições financeiras americanas das quais são parceiros. Logo, não financiam exportações devido ao risco embutido nessas operações, mesmo que os alimentos geralmente fiquem fora dessas sanções.

"Pelo acordo nuclear de 2015 os EUA tinham se comprometido a levantar todas as barreiras financeiras, mas agora, com a saída dos bancos americanos, devem endurecer mais ainda e isso pode complicar a questão financeira para os exportadores do Brasil", diz Azeredo. "No caso do agronegócio, as tradings multinacionais com atuação no Brasil fazem a maioria das operações usando seus bancos em outros países, mas exportadores menores têm dificuldades", conclui.

De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), Péricles Salazar, o problema financeiro já tem afetado os abatedouros de menor porte do Brasil. Diante disso, a associação pedirá apoio do governo.

Na tentativa de contornar esse problema, Banco Central, Itamaraty e Ministério da Agricultura já vêm procurando incentivar pequenos e médios bancos brasileiros a atuarem no Irã. Ou, ainda, negociar a vinda de instituições financeiras do Irã ao país.

No Ministério da Agricultura, o Irã é visto como um mercado a ser explorado. A Pasta estima que a receita com as exportações ao país podem atingir US$ 5 bilhões no médio prazo. Com o intuito de aumentar as vendas ao Irã, uma comitiva do Ministério da Agricultura promoveu uma missão comercial no Irã em setembro do ano passado. Além dos produtos já exportados, o Brasil tem interesse em acessar o mercado iraniano de frutas, café, arroz e gado.

"O Irã têm um mercado consumidor em expansão, mas sabemos das dificuldades financeiras. Já conversamos com o Banco do Brasil e estamos tentando destravar isso", diz o secretário-executivo do Ministério, Eumar Novacki.

O Valor apurou que o Banco do Brasil não tem financiado negócios de exportadores brasileiros no Irã, por determinação do departamento de compliance.

Por Cristiano Zaia | De Brasília

Fonte : Valor

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