Venda de ativos frustra expectativas e adia ‘ajuste’ da BRF

Claudio Belli/Valor

Segundo Pedro Parente, plano de emergência da empresa foi bem sucedido

À frente da BRF desde 27 de abril do ano passado, Pedro Parente encerrou ontem sua primeira missão na endividada companhia. O plano de emergência com o qual buscava R$ 5 bilhões para diminuir o passivo foi cumprido parcialmente, o que desapontou os investidores. Em razão do impasse envolvendo a saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit), a BRF teve uma frustração de receita da ordem de R$ 1 bilhão nas vendas de ativos operacionais.

Com isso, a única promessa de Parente teve de ser flexibilizada. Pelos planos iniciais, o índice de alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado) da BRF deveria cair das 6,7 vezes registradas em setembro para 4,35 vezes no balanço que será divulgado em 28 de fevereiro.

No entanto, como a empresa recebeu menos do que esperava, a redução da alavancagem será mais lenta. Ontem, a BRF informou que o índice deverá ficar próximo de 5 vezes. A frustração de receita também afetou a projeção para o fim de 2019. Agora, a expectativa é que o índice de alavancagem atinja 3,65 vezes em 31 de dezembro. Inicialmente, a BRF imaginava 3 vezes.

Diante da revisão nas metas, os investidores reagiram mal, anulando a forte valorização das ações que ocorreu na terça-feira, quando Ivan Monteiro, ex-presidente da Petrobras, foi indicado para a vice-presidência financeira e de reações com investidores. Na B3, as ações da BRF recuaram 4% ontem, maior baixa do Ibovespa.

A decepção dos investidores foi conhecida na madrugada de quinta-feira, quando a Tyson Foods, maior empresa de carnes dos EUA, anunciou a aquisição dos ativos da BRF na Europa e na Tailândia por US$ 340 milhões (R$ 1,264 bilhão, conforme cálculos do Valor Data).

Esses eram os últimos ativos à venda no plano de desinvestimentos. Entre dezembro e janeiro, a BRF já havia vendido as operações na Argentina e uma fábrica de hambúrguer no Brasil. Ao todo, a empresa obteve R$ 1,9 bilhão com a venda de ativos operacionais, abaixo dos R$ 3 bilhões projetados. Somados a outras medidas (sobretudo de gestão de capital de giro), a BRF conseguiu cerca de R$ 4 bilhões. Foi a frustração na venda de ativos, portanto, que impediu os R$ 5 bilhões.

Apesar disso, Parente sustentou que o plano de emergência foi bem sucedido na visão do conselho de administração da BRF e também do time de executivos. Segundo ele, a companhia garantiu uma trajetória descendente da alavancagem.

Com os recursos do plano de desinvestimentos e a rolagem de empréstimos já feita, a BRF pode pagar todas as dívidas que vencem em 2019. Ao final do processo, sobrariam cerca de R$ 5,8 bilhões, montante mais do que suficiente para a companhia tocar o dia a dia. Segundo Lorival Luz, vice-presidente executivo da BRF, o caixa mínimo necessário é de R$ 5 bilhões.

Sendo assim, frisaram Luz e Parente, a BRF não precisa vender mais ativos. "Não há qualquer necessidade de caixa adicional", afirmou o vice-presidente. A analistas, Parente admitiu que a BRF chegou a considerar a venda de mais ativos para atingir a meta de R$ 5 bilhões, mas que o conselho de administração chegou à conclusão de que isso não será necessário, ao menos no curto prazo.

A avaliação foi essa porque a companhia aposta na recuperação gradual dos negócios. O entendimento é que as turbulências – investigações da Polícia Federal, embargo da União Europeia, preços elevados dos grãos – foram superadas ou estão em vias de ser. No caso do mercado de frangos e suínos, os preços ajudam, acrescentou Luz.

De acordo com o vice-presidente da BRF, o preço da carne de frango aumentou 50% na comparação com igual período do ano passado, e o da carne suína, 20%. Nesse cenário, a empresa vai voltar a gerar fluxo de caixa livre em 2019, disse Parente.

Paralelamente, a BRF dará início à segunda fase do processo de alongamento de sua dívida, que somava R$ 22 bilhões em setembro. Para isso, a empresa contará com a experiência de Ivan Monteiro, que fez o mesmo processo na Petrobras.

Em relação à Monteiro, aliás, chamou atenção a forma como a BRF citou o executivo na teleconferência. Em uma tentativa de afastar especulações de que o ex-Petrobras será uma "ameaça" em seu caminho rumo ao posto de CEO, Lorival Luz mencionou, espontaneamente, as qualidades do executivo e as missões que ele terá na BRF.

Ao deixar a tarefa de explicar os objetivos de Monteiro a Luz, Parente prestigiou o vice-presidente em um momento de desconfiança dos investidores. Luz está sendo preparado para assumir o cargo de CEO global da BRF até meados de junho, prazo final para que Parente deixe de acumular os cargos de presidente do conselho e de presidente-executivo.

A intenção da BRF é que, juntos, Luz e Monteiro façam com que, até 2020, a empresa recupere os níveis históricos de rentabilidade – margens de 10%, segundo analistas. A melhora operacional será vital para que o índice de alavancagem de longo prazo da BRF fique entre 1,5 vez e 2 vezes. Se tudo der certo, a BRF estará pronta para aquisições em 2021, sobretudo na Arábia Saudita. Enquanto isso, a companhia busca parcerias (ver Companhia busca parcerias com fundos soberanos para ingressar na Arábia Saudita).

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor