Variação cambial levou Biosev a fechar segundo trimestre da safra com perdas

A reestruturação de dívida bilionária realizada pela Biosev (controlada da Louis Dreyfus Company) no início do ano contribuiu para que a companhia pudesse ter mais flexibilidade operacional e aliviasse inicialmente as despesas financeiras no segundo trimestre da safra atual, a 2018/19 (encerrado em setembro). Mas a forte valorização do dólar no período teve um forte efeito (contábil, mas não no caixa) sobre as despesas financeiras, dado que a maior parte da dívida é dolarizada. Com isso, a empresa registrou um prejuízo líquido de R$ 155,6 milhões no segundo trimestre do ciclo atual.

No mesmo trimestre da safra passada, a companhia lucrou R$ 32,9 milhões, mas a variação cambial havia contribuído de forma positiva com R$ 216 milhões.

No total do primeiro semestre, a variação cambial retirou R$ 664,5 milhões do resultado contábil – correspondendo ao prejuízo do período, de R$ 662 milhões.

O desempenho financeiro continuou sendo um fator negativo para o balanço da Biosev, embora o peso esteja menor. Com a reestruturação da dívida, a despesa com juros caiu, reduzindo em 9,8% as despesas financeiras líquidas, para R$ 162,3 milhões.

No trimestre, a Biosev pagou R$ 449,2 milhões em amortizações, além de juros, o que acabou consumindo caixa. Por isso, mesmo com redução da dívida bruta, a dívida líquida subiu 4,9% ante o trimestre anterior, a R$ 5,2 bilhões. Mas o valor a ser pago no curto prazo era de R$ 511 milhões, abaixo do montante em caixa, de R$ 859 milhões, de acordo com dados do balanço.

A retirada da pressão de curto prazo permitiu que a companhia tenha mais flexibilidade comercial. "Agora temos capacidade de gerenciar melhor os estoques e ter ganhos no momento certo de vender. Não tem mais a loucura de vender logo", disse Gustavo Theodozio, diretor financeiro e de relações com investidores da Biosev.

A companhia de fato armazenou mais produto. Em 30 de setembro, havia 459 milhões de litros de etanol em seus estoques, 33% a mais do que um ano antes. No caso do açúcar, havia 302 mil toneladas, um aumento marginal. Segundo Juan José Blanchard, que assumiu a presidência da companhia em junho, o aumento dos estoques de etanol se deu graças à estratégia de carregamento e também pela decisão de maximizar a produção do biocombustível, que chegou a um patamar recorde.

O desempenho operacional da Biosev começou a se recuperar, apesar do cenário de mercado adverso. A redução da produção e das vendas de açúcar nesta safra fizeram a receita líquida da empresa no último trimestre recuar 17,8%, para R$ 1,5 bilhão (desconsiderando efeitos de hedge da dívida). Mas ajustes internos, sobretudo na estrutura administrativa, compensaram esse efeito.

A redução de gastos com vendas e de despesas permitiu que o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) ajustado (também excluídos os efeitos de hedge da dívida) crescesse 34,1%, a R$ 538,5 milhões. A margem Ebitda ajustada (excluídos os mesmos efeitos) subiu 6 pontos, para 39,1%.

A venda da Usina Estivas, em Arês (RN), fechada em setembro por R$ 203,6 milhões, ainda depende de aprovação de órgãos reguladores. Segundo Theodozio, a expectativa é que o negócio seja concluído até o fim desta safra, o que deve fortalecer o caixa neste exercício. Sobre a venda da Usina Giasa, em Pedras de Fogo (PB), Blanchard disse que "ainda não tem nada definido ou assinado".

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

Fonte : Valor