"Vale das sementes" holandês move a produção de hortaliças no mundova

Kauanna Navarro/Valor

Arend Schot, responsável pelas operações de sementes de vegetais na Europa, África e Oriente Médio da Syngenta

Em Enkhuizen, no noroeste da Holanda, dezenas de empresas se reúnem no "Seed Valley" empenhadas em desenvolver novas tecnologias. Não é um lugar qualquer. É esse polo, uma espécie de Vale do Silício agrícola, que gera metade do material genético de sementes de vegetais e hortaliças plantadas no mundo todo, com exportações calculadas de € 2,4 bilhões ao ano quando também somadas as inovações direcionadas à floricultura.

"Há mais tecnologia dentro da semente de tomate que em seu IPhone", brinca Hanneke Verhelst, gerente de sustentabilidade da Syngenta na Holanda. Brincadeira ou não, diz, o fato é que um quilo de sementes de tomate custa € 200 mil euros, enquanto um quilo de ouro é avaliado em cerca de € 35 mil. A suíça Syngenta, controlada pela Chemchina, mantém em Enkhuizen seu centro de sementes de vegetais, e também estão no polo unidades das alemãs Bayer e da Basf, entre muitos outros.

"Eu sinto que é uma grande responsabilidade alimentar o mundo", afirmou Joep Boon, funcionário do centro da Syngenta há 34 anos. Boon é quase um predestinado. Seu sobrenome significa "feijão" em holandês, mas ele trabalha na assistência de criação de sementes couve, rabanete e couve-flor, entre outros vegetais da família Brassicaceae. A Syngenta é uma das multinacionais de insumos que mais investem em pesquisa. São cerca de US$ 1,4 bilhão ao ano.

A empresa está na origem da criação do "Seed Valley". O polo foi fundado em 1867, como Sluis & Groot Enkhuizen. Em 1963, diversas empresas familiares, entre as quais a Sluis, fundiram-se à Zaadunie, que em 1980 foi adquirida pela Sandoz. Já no fim dos anos 1990, a Sandoz se juntou à Ciba-Geigy e criou a Novartis, que concentrou seus negócios agrícolas na Novartis Agribusiness. No ano 2000, esse braço uniu forças com a Astra Zeneca e assim nasceu a Syngenta, adquirida em 2017 pela ChemChina.

No polo holandês são desenvolvidas apenas sementes de vegetais, hortaliças e flores. Como a União Europeia não permite trabalhos com organismos geneticamente modificados (OGMs), sementes transgênicas de grãos como soja e milho, normalmente, são desenvolvidas em laboratórios nos EUA.

No Brasil, sementes desenvolvidas na Holanda pela Syngenta são as mais usadas na produção de milho doce e tomate de alta qualidade. "Também temos participação relevante em melancia, alface, couve-flor, brócolis", afirma Arend Schot, responsável pelas operações de sementes de vegetais da múlti na Europa, na África e no Oriente Médio. Schot conhece bem o Brasil. Foi diretor na área de defensivos da Syngenta no país por oito anos. Segundo ele, o mercado brasileiro de sementes de vegetais movimenta cerca de US$ 200 milhões por ano, ante US$ 2,5 bilhões na Europa.

A Syngenta é a terceira maior empresa de sementes de hortaliças e vegetais do mundo, atrás da Bayer, que herdou a participação da Monsanto, e da cooperativa francesa Limagrain. Depois de concluída a venda de seu controle para a ChemChina, a companhia investiu US$ 40 milhões na construção de um novo centro de criação de sementes de alta tecnologia no "Seed Valley", o que foi encarado como sinal de que os chineses consideram a área estratégica.

No Brasil ainda há muito a avançar, segundo Schot. "O consumidor brasileiro ainda gasta uma fatia considerável do seu salário com alimentação, então não pode gastar € 2,50 [R$ 11,63] em um pedaço de melancia sem caroço já cortada", observa A Syngenta tem cerca de 15% do mercado de sementes de vegetais e hortaliças no país, mas quando o assunto é milho doce, cujo mercado total movimenta US$ 15 milhões, a participação chega a 90%. No tomate de alta tecnologia, a fatia é de 25%.

Conforme o executivo, o desenvolvimento de novas tecnologias incentiva uma segmentação que deverá dar o tom desse mercado nos próximos anos. "No passado, tínhamos quatro tipos de tomate, mas agora já temos mais de dez. Um tomate ‘sweet grape’, por exemplo, custa quatro vezes mais para o consumidor que um tomate padrão".

Como o desenvolvimento de sementes com maior produtividade e resistentes a pragas está cada vez mais caro, essa indústria também tem como desafio reduzir custos de produção, principalmente com mão-de-obra, e evitar desperdício, segundo Schot.

No "Seed Valley" também está a origem de muitas flores produzidas no mundo. No Brasil, a maior parte é comercializada em Holambra, município do interior paulista conhecido como a "Holanda brasileira". A Syngenta tem 20% do mercado brasileiro de sementes de flores. Para a companhia, o segmento de flores representa 3% do faturamento total, que em 2017 somou US$ 12,7 bilhões. E a aposta da múlti nesse mercado tem crescido. Em julho adquiriu a Floranova, sementeira fundada há 40 anos no Reino Unido que atua nas áreas de flores e hortas caseiras e está presente em mais de 50 países.

Segundo Gerard Werink, que fica baseado em Enkhuizen mas é responsável, na Syngenta, pelo mercado de flores do Brasil, as vendas no país estão se recuperando depois que a crise econômica gerou uma certa estagnação. "O mercado está mais estável. Estive no Brasil há um mês e já está havendo crescimento em algumas regiões".

A jornalista viajou a convite da Agência de Investimentos Estrangeiros da Holanda

Por Kauanna Navarro | De Enkhuizen (Holanda)

Fonte : Valor