Vaivém – Sojicultor do Paraná vence desafio com produtividade 120% maior que a média

Volume médio tão elevado como o do produtor ainda é utópico, mas potencial produtivo de algumas regiões indica patamares avançados

Tomando-se como base a maior produtividade de soja do país, o Brasil poderia ter produzido 298 milhões de toneladas da oleaginosa neste ano, mas os dados finais indicaram 136 milhões.

O Cesb (Comitê Estratégico Soja Brasil) faz anualmente um desafio entre produtores para ver quem obtém a maior produtividade nacional.

Neste ano, o ganhador foi um produtor do Paraná, que obteve 129,16 sacas (7.750 kg) por hectare, uma produtividade bem acima das 58,8 sacas (3.528 kg) da média do país.

O Cesb, que surgiu em 2008, reuniu um grupo de profissionais e de pesquisadores na área de soja para ajudar a tirar o país da incômoda marca das 50 sacas por hectare, patamar que mantinha havia vários anos. Os números atuais indicam tendência contínua de evolução.

Grãos de soja em estrada rural durante colheita, nas proximidades de Londrina, no Paraná – Sergio Ranalli – 4.mar.2021/Folhapress

Um volume médio nacional tão elevado como o atingido pelo produtor paranaense ainda é utópico, mas o potencial produtivo de algumas regiões já indica patamares bastante avançados.

O país, contudo, está aberto para novos avanços, segundo Alvadi Antonio Balbinot Junior, pesquisador e chefe de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa Soja.

As ferramentas tecnológicas à disposição dos produtores já permitem avanços significativos, mas eles têm de fazer a parte deles, que é um bom manejo da produção.

A linha de tendência indica que haverá um incremento gradual da produtividade brasileira. Alguns estados, como o Paraná, deverão ultrapassar os 4.000 quilos –67 sacas– por hectare em dois ou três anos.

Em outras regiões, onde as condições de produção são menos favoráveis, a evolução será mais modesta, afirma o pesquisador da Embrapa.

Para Balbinot, a marca de 7.750 kg por hectare (129,16 sacas) atingida nesta safra 2020/21 está longe de ser uma média nacional porque ela acontece em condições especiais de cultivo.

Em geral, essas altas produtividades ocorrem em regiões bastante favoráveis à produção, o produtor escolhe o filé mignon de sua propriedade e dá uma atenção especial à lavoura. Daí um resultado tão elevado.

Mas o produtor vai usar cada vez mais a inteligência para obter um volume maior. E essa busca de produtividade deve vir acompanhada de rentabilidade e de sustentabilidade. O custo de produção é cada vez maior, e o sojicultor quer uma verticalização das lavouras, produzindo mais na mesma área, diz Balbinot.

A expansão de área para a soja deverá continuar, principalmente após a valorização das commodities e o ganho recente dos produtores.

Essa nova ocupação, no entanto, se dará sobre áreas degradas de pastagens que tenham condições favoráveis à cultura. Isso é bom para o ambiente, afirma o pesquisador.

Para ele, as condições para o avanço da produtividade existem, mas sempre surgem problemas pelo caminho. Ele cita o aparecimento da ferrugem asiática, uma das piores doenças do setor, e os do percevejo e da Helicoverpa armígera, duas das principais pragas desta lavoura.

O avanço da produtividade depende, no entanto, de vários fatores. Do lado da ciência, a genética já dá condições de novos crescimentos, como mostra o desafio do Cesb. A genética tem um DNA para isso.

Drone pulverizador na Agrishow, em feira de agronegócio em Ribeirão Preto (SP)

Drone pulverizador na Agrishow, em feira de agronegócio em Ribeirão Preto (SP) Paulo Vargas/Agrishow/Divulgação

Um fator imprevisível, porém, é o clima. Algumas regiões, como ocorre no Rio Grande do Sul, vivem uma gangorra climática, alternando boas safras, como a deste ano, com fortes quebras, como a do ano passado.

O produtor já dispõe de ferramentas que auxiliam nesse avanço da produtividade. Entre elas, a mecanização e a agricultura de precisão. Esta permite que o agricultor aproveite ainda mais a sua área mais produtiva e corrija a de menor produtividade.

Boa parte da conquista dos avanços, porém, está nas mãos do produtor. Ele necessita avaliar o que está limitando a sua produção.

Entre os principais fatores limitantes estão a qualidade e o manejo do solo. O produtor tem o controle do que compra, principalmente quando se refere a máquinas e insumos, mas também necessita controlar o que depende apenas dele, como o solo.

Uma parceria entre a Embrapa e a Cocamar, cooperativa de Maringá, para avaliar o que estava impactando a produção de soja na região, constatou que os principais entraves eram o solo compactado e a necessidade de calcário.

A ação do produtor é decisiva nesses casos.

A coluna é assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, formado em jornalismo e ciências sociais, com MBA em derivativos na USP.


Vaivém das Commodities

Fonte : Folha

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