Vaivém – Queda na expectativa econômica afeta a produção e o consumo de alimentos

Renda estagnada, alta de preços e desemprego e subemprego elevados reduzem demanda

A expectativa frustrada da evolução econômica está derrubando a produção e o consumo de alimentos. Havia uma esperança de melhores sinais econômicos, mas a evolução está bem mais lenta do que o previsto.

Essa é a avaliação que Heron do Carmo, professor sênior da FEA/USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo), e Francisco Turra, presidente da ABPA (Associação Brasileira de Proteínas Animal), fazem do cenário atual do país.

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou, na semana passada, que a produção da indústria de alimentos recuou 4,9% em março, em relação a fevereiro. Nos últimos 12 meses, a queda foi de 0,9%.

Funcionário em processadora de carnes em Goiás; produção na indústria de alimentos caiu 4,9% em março Funcionário em processadora de carnes em Goiás; produção na indústria de alimentos caiu 4,9% em março – Li Ming – 23.mar.17/Xinhua

O dado de março pode significar apenas um acerto de rumo do setor, segundo Heron. As indústrias se prepararam para uma reação maior da economia neste início de ano, e ela não veio. Agora estão desovando estoques.

A queda contínua nos últimos meses, porém, reflete uma situação um pouco mais delicada. O elevado desemprego e o subemprego afetam a renda e reduzem a demanda dos consumidores.
O resultado é uma renda per capita praticamente estagnada e concentração de renda em poucos setores, segundo o economista.

“A demanda por alimentos é democrática, mas o não aumento da renda acaba beneficiando apenas uma parcela da população”, diz Heron.

Para ele, os preços dos alimentos também têm peso na demanda. O salário não aumenta, e a economia não cresce.

Dados do Indicador Abrasmercado, da Abras (Associação Brasileira de Supermercados), mostram que o preço de alguns alimentos supera a taxa de inflação.

Farinha de trigo e queijos, com aumento de 21% e de 13%, respectivamente, lideraram a alta de preços dos alimentos na cesta da entidade nos últimos 12 meses.

O indicador nacional de vendas da Abras mostrou evolução positiva de 0,42% neste ano, até março, em relação a igual período do ano anterior. Apesar dessa alta, a taxa de crescimento acumulada foi a menor em dois anos.

Para Turra, o consumidor está pisando no freio e, quando a compra é imprescindível, busca produtos de menores preços. “Isso porque a economia não se move.”

O presidente da ABPA diz que as pesquisas da entidade mostram que o consumidor tende a pegar o produto mais barato.

“E ele já está na prateleira de baixo. Trocou a carne bovina por aves e suínos e, agora, chegou aos ovos, o último refúgio em preços baixos”.

Essa queda de produção e de consumo de alimentos vai chegar ao campo e poderá afetar o produtor, segundo o executivo da ABPA. Ele destaca, no entanto, que a cadeia de proteínas está protegida pelo grande apetite chinês.

A acelerada evolução da peste suína na China colocou o país asiático e Hong Kong na liderança das importações de carnes brasileiras.

A melhora do mercado externo, porém, dá sustentação aos preços internos das proteínas. As carnes estão em alta, segundo os institutos de pesquisas de inflação.

Turra afirma que, além de China e Hong Kong, outros grandes consumidores de carnes, como Japão, México e Coreia do Sul, se interessam cada vez mais pelo produto brasileiro.

Esse cenário pouco favorável da economia só será resolvido com um avanço efetivo das reformas, principalmente a da Previdência, e de projetos de linha de crédito para empreendedores e para capital de giro, afirma Turra.

Vaivém das Commodities

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A coluna é assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, formado em jornalismo e ciências sociais, com MBA em derivativos na USP.

Fonte : Folha

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