Vaivém – O momento é de festa na pecuária, mas também traz preocupação, segundo o Itaú BBA

Pecuarista paga preço elevado por bezerro e uma eventual queda no valor da arroba de boi gordo provocará um baque nas finanças do produtor

Tudo é festa na pecuária. A afirmação é de César de Castro Alves, consultor de agronegócios do Itaú BBA. O cenário é muito positivo para o setor.
Patrocinada pelos chineses, essa festa também traz preocupações. Até quando dura esse fôlego e a necessidade de importações da China?, pergunta o analista.
Os pecuaristas estão adquirindo bezerro a R$ 2.000 para a engorda, o que exige uma manutenção dos elevados preços da arroba para uma remuneração do setor lá na frente.
Se a China, por algum motivo, pisar no freio nas compras, o mercado interno não terá renda para garantir essa alta da carne.
Entre esses motivos que poderiam provocar exportações menores de proteínas do Brasil para a China estão desde a chegada de uma vacina contra a peste suína africana a um acerto comercial entre Estados Unidos e China.
Na avaliação de Alves, o produtor precisa olhar para a frente e buscar proteção contra eventual desaceleração dos preços.

Linha de produção do frigorífico Kerchin, próximo à cidade de Tongliao, na Mongólia Interior – Lalo de Almeida/Folhapress

Pedro Fernandes, diretor de agronegócio do Itaú BBA, diz que é bom o pecuarista manter escala. O perigo é ele, por exemplo, dobrar o confinamento e os preços da arroba recuarem.

Para o frigorífico é mais fácil porque fecha um turno e se ajusta. Para o pecuarista, a situação é mais complexa. "Afinal, é o mercado externo que está pagando a conta", diz ele.

O momento, no entanto, é de pujança para o setor de proteínas do Brasil, principalmente para a carne bovina.
No caso da carne de frango, a China ligou os motores para aumentar a produção. No de carne suína, está buscando o produto na Europa. Com relação à carne bovina, o Brasil está praticamente só no fornecimento dessa proteína para a China.
O Itaú BBA fez, nesta quinta-feira (21), uma avaliação do agronegócio para este ano e traçou perspectivas para o próximo.
Antonio Barreto, analista de alimentos e de agronegócio do banco, e que também participou do evento, diz que os preços elevados irrigam toda a cadeia, com lucros para produtores e frigoríficos.
A rentabilidade é maior, porém, para quem exporta. Além de uma demanda externa mais atraente, os exportadores têm o câmbio a seu favor. "Quem exporta, faz boas margens, apesar dos preços elevados da arroba", diz o analista.
A rentabilidade na avicultura no Brasil, porém, pode ser a de maior volatilidade. Os chineses conseguem aumentar a oferta de frangos rapidamente, porque a produção é de ciclo curto, mas não fazem o mesmo com a suinocultura e com bovinocultura, afirma Barreto.


Mesmo com área maior, poderá haver importação de milho
Avaliando o setor de grãos, Guilherme Bellotti, gerente de agronegócio do Itaú BBA, diz que a safra 2019/20 terá um cenário mais heterogêneo do que a de 2018/19.

O algodão terá preços menos atraentes devido ao aumento de produção mundial. Haverá um superávit global da pluma na próxima safra. A rentabilidade no setor, porém, é boa devido às vendas antecipadas.
A produção mundial de soja foi afetada pela redução de 24 milhões de toneladas nos Estados Unidos, mas a produção é boa na América do Sul.

O mercado global será menos folgado do que em 2018/19, o que justifica a alta de preços nos últimos meses. A oleaginosa terá uma rentabilidade razoável.
O milho surpreendeu, e os preços ficaram acima do que se previa. Mesmo com produção recorde, houve aumento de exportações, maior consumo interno e os estoques de passagem acendem a luz amarela.
Para Bellotti, não está descartada a importação do cereal no próximo ano. Os bons preços do milho, contudo, permitirão um aumento de área, embora com o uso de menor tecnologia, devido ao atraso no plantio.
Será mais um ano de boas margens para o produto, segundo o analista do Itaú BBA.

Colheita do milho em fazenda no interior de São Paulo – Eduardo Knapp-14.fev.17/Folhapress

Vaivém das Commodities

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A coluna é assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, formado em jornalismo e ciências sociais, com MBA em derivativos na USP.

Fonte : Folha