Vaivém: Liberação da carne brasileira vira guerra digital nos EUA

Americanos desqualificam produto do Brasil na abertura de mercado

Os americanos bateram palmas quando os chineses, após 19 anos, retiraram as sanções contra a carne bovina dos Estados Unidos. Afinal, estavam voltando para um dos principais mercados do mundo.

Agora, porém, estão em pé de guerra com a liberação da carne “in natura” brasileira no mercado americano. Afinal, estão diante do principal exportador mundial.

As brigas, sempre digitais, são travadas entre os próprios americanos. Os que aceitam são chamados de estúpidos pelos que são contrários.

Não faltaram também brasileiros e australianos nessa discussão. Os brasileiros destacam o protecionismo americano e o desconhecimento sobre a produção no Brasil.

Linha de produção de frigorífico no Brasil; americanos estão em pé de guerra com a liberação da carne “in natura” brasileira no mercado americano Linha de produção de frigorífico no Brasil; americanos estão em pé de guerra com a liberação da carne “in natura” brasileira no mercado americano – Pedro Ladeira/Folhapress

Além disso, os americanos creem que só nos Estados Unidos se produza alimento de qualidade, segundo um deles.

Já os australianos estão preocupados com a possibilidade de o Brasil roubar mercado dos pecuaristas da Austrália.

Um deles lembrou, no entanto, que o Brasil vai dividir uma cota conjunta com outros países de apenas 65 mil toneladas por ano. Volume acima deste paga uma taxa de 26%.

Já a Austrália tem garantidas 378 mil toneladas anualmente nos Estados Unidos.

Os dados da alfândega dos Estados Unidos, acumulados até segunda-feira (24), indicam que a cota da qual o Brasil participa já foi preenchida em 14 mil toneladas neste ano. A da Austrália, em 34 mil.

Um produtor americano está inconformado. Os Estados Unidos perderam a liderança nas exportações de grãos e de carnes para o Brasil e, para piorar, abrem as portas para a carne brasileira.

A NCBA (associação de produtores de carne bovina nos Estados Unidos) está entre a cruz e a espada. Aceitar a política benéfica do governo Donald Trump para o setor ou contestar a abertura das importações do produto brasileiro.

Foi do elogio à crítica. Destacou a sensibilidade do secretário de Agricultura do país, Sonny Perdue, por pautar o comércio externo na ciência, o que provocou a interrupção das exportações brasileiras para os Estados Unidos em 2017, segundo ela.

Destacou, porém, ter sérias preocupações com a reentrada da carne brasileira no mercado americano. O país tem um histórico de febre aftosa e de repetidas violações à segurança alimentar, destacou a associação.

Alguns consumidores estão exigindo um selo para a carne do Brasil. Não querem pagar pela carne brasileira o mesmo valor que pagam pela americana. Esta, segundo eles, de melhor qualidade.

Não faltou o troco nessas conversas digitais. Brasileiros entraram na briga destacando que a única justificativa dos americanos é o protecionismo. Eles têm medo da concorrência do produto brasileiro, mais competitivo e mais sustentável.

Um americano diz que a carne brasileira deveria ser classificada como um lixo fedorento provindo da América do Sul.

O brasileiro deu o troco. A carne do Brasil tem por trás uma produção a pasto, é segura e levada muito a sério. Tanto que a União Europeia, sem necessidade do mesmo protecionismo, a importa.

Os brasileiros afirmaram, ainda, nessa briga digital nas publicações voltadas ao setor, que o Brasil tem leis ambientais acima das dos EUA e das da União Europeia.

Sobraram farpas também para Donald Trump e JBS. O presidente, segundo os internautas, fez isso porque tem negócios no Brasil. A JBS, favorecida nos negócios, já esteve envolvida em atitudes duvidosas.

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Até um senador do estado de Montana, na obrigação de defender seus eleitores —como todos eles fazem—, se diz chocado com as importações de carne fresca do Brasil.

Segundo ele, o produto brasileiro coloca em risco as famílias americanas. É uma carne podre que vai aos supermercados americanos coberta por produtos químicos que causam câncer.

Não faltaram discussões políticas entre democratas e republicanos, estes últimos do partido do presidente.

Para um pecuarista americano, não há motivos para a importação da carne brasileira. Os Estados Unidos não têm escassez de produto, e o Usda (Departamento de Agricultura dos EUA) não vai se acalmar enquanto não levar a febre aftosa para dentro do país, afirma.

Essa discussão mostra que o Brasil acaba de atingir um mercado exigente na qualidade e espelho para outros países em cuidados na segurança alimentar.

Erros do passado, porém, mostram que o Brasil terá um longo caminho a percorrer para recuperar a imagem. Produtores e exportadores brasileiros deverão ter muita transparência, principalmente porque o mercado está cada vez mais competitivo.

Vaivém das Commodities

A coluna é assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, formado em jornalismo e ciências sociais, com MBA em derivativos na USP.

Fonte: Folha

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