Vaivém – Exportações elevam preço de alimentos no mercado interno e pressionam inflação

Subiram os valores do arroz, carnes bovina e suína, óleo de soja e açúcar

As exportações do agronegócio vão muito bem. A demanda está tão aquecida que o país vende tudo o que consegue colocar no mercado externo.

As vendas de alimentos tão aceleradas, porém, estão elevando os preços internos das matérias-primas e começam a pesar forte no bolso do consumidor brasileiro.

Dois fatores básicos puxam os preços internos, que chegam com força à taxa de inflação dos alimentos. Primeiro, o real fraco torna os produtos brasileiros bastante competitivos no exterior. Com menos dólares, os importadores compram mais por aqui.

Pessoas comprando carne no açougue Tennessee na Av. SapopembaCarnes ajudam a empurrar para cima a inflação dos alimentos – Robson Ventura – 29.mar.2017/Folhapress

Além disso, o isolamento social, provocado pela pandemia e ajudado pelo auxílio emergencial, elevou o consumo de alimentos no lar, favorecendo ainda mais o aquecimento dos preços dos produtos básicos.

Quando o auxílio de R$ 600 terminar, ou for reduzido, os consumidores de baixa renda vão sentir com mais intensidade o efeito das altas dos alimentos básicos.

O arroz tem um dos principais reajustes, e parte dessa alta se deve às exportações. A saca do cereal gaúcho é negociada ao valor recorde de R$ 93 no campo, 107% mais do que há um ano.

Só neste mês, a evolução foi de 37%, segundo o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada).

Nos últimos 12 meses, ainda sem incorporar essa puxada de agosto, a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) registra aumento de 26% nos preços médios do arroz para os consumidores.

Além da maior demanda interna, o setor está conquistando novos mercados externos. As exportações dos primeiros cinco meses desta safra (março a julho) aumentaram 97% em relação às de igual período do ano passado.

As carnes, um item que ganha peso na balança do agronegócio nos últimos anos, também empurram para cima a inflação dos alimentos.

A crise desencadeada pela paralisação da economia começou com os fechamentos dos estabelecimentos comerciais e as medidas de isolamento. No dia 17 de março, com a morte da primeira pessoa, o país começou a parar

Primeiro mês da pandemia no Brasil, março já apresentou resultados negativos nos diferentes setores da economia. Segundo os dados do IBGE (atualizados em junho de 2020), naquele mês a queda do setor de serviços chegou a 6,9%, enquanto a indústria recuou 9,2% e o comércio 2,8%

Primeiro mês da pandemia no Brasil, março já apresentou resultados negativos nos diferentes setores da economia. Segundo os dados do IBGE (atualizados em junho de 2020), naquele mês a queda do setor de serviços chegou a 6,9%, enquanto a indústria recuou 9,2% e o comércio 2,8% Bruno Santos/Folhapress

A forte demanda chinesa fez o preço do boi atingir o patamar recorde de R$ 237 por arroba, 50% mais do que há um ano.

As exportações de carne bovina cresceram 16% de janeiro a julho, em relação a 2019, e os consumidores pagam 25% mais pelo produto nos últimos 12 meses. Os cortes mais básicos, como costela e acém, têm as altas mais acentuadas: 45% e 39%, respectivamente.

O mesmo ocorre com a carne suína, que teve evolução de 40% na exportação deste ano. Os preços internos dos animais aumentaram 76% nas granjas em 12 meses, e os consumidores pagam 15% mais pelo produto, segundo a Fipe.

Um pouco mais comportada, a carne de frango tem exportações estáveis e elevação de preços de 10% para os consumidores.

Outra pressão intensa no bolso dos brasileiros vem da soja. As vendas externas deste ano são recordes e já somam 75 milhões de toneladas. A redução da oferta interna da oleaginosa afeta os preços do óleo de soja e do farelo.

Nos últimos 12 meses, a tonelada do óleo de soja teve uma valorização de 80% no país. O resultado foi uma elevação de 31% no preço pago pelo consumidor paulistano no período de setembro de 2019 a agosto de 2020.

O óleo de soja descolou da inflação, que teve evolução média de apenas 2,7% em São Paulo nos últimos 12 meses.

O mercado externo também favorece o reajuste nos preços internos do açúcar. As exportações de julho superaram em 92% as de igual período do ano passado. Nos sete primeiros meses, a alta é de 57%.

Essas vendas ajudaram a saca do produto subir para R$ 84 em São Paulo, 39% mais do que há 12 meses. No varejo, a alta foi de 22% no período.

O milho, embora as exportações ainda não tenham tomado um ritmo acelerado, afeta os custos de indústrias de ração. A saca atingiu R$ 61 e supera em 66% o valor de agosto do ano passado.

O algodão também pesa no custo das indústrias. As exportações deste ano foram 57% superiores às de igual período de 2019, forçando uma alta de 35% nos preços internos da arroba do pluma desde agosto de 2019.

A valorização do dólar, que facilita as exportações, onera as importações. A farinha de trigo tem aumento de 20% no varejo nos últimos 12 meses.

Vaivém das Commodities

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A coluna é assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, formado em jornalismo e ciências sociais, com MBA em derivativos na USP.

Fonte : Folha

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