Vaivém – Estoques de arroz e feijão recuam a níveis mínimos e preço deve subir

 

Recessão, desemprego, queda de renda e dinheiro curto. O que a classe menos abonada vai consumir nesta travessia difícil do país?

Vai recorrer ao tradicional prato feito, feijão com arroz. Será? Esses dois produtos, os mais comuns na mesa dos brasileiros, deverão ter presença menor nas gôndolas dos supermercados.

O resultado serão preços maiores para os consumidores e peso na inflação, uma vez que os dois itens têm grande participação na alimentação do dia a dia.

Os números do próprio governo não são animadores. O país deverá terminar a safra 2015/16 com o menor volume de estoques finais de arroz em pelo menos duas décadas.

Rogerio Canella/Folhapress

Dados desta semana da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) indicaram que o país termina a safra com apenas 283 mil toneladas de arroz nos armazéns. Se isso realmente acontecer, o país terá um estoque para apenas dez dias de consumo. Nos cinco anos anteriores, a média era de 46 dias.

O estoque final de feijão também é preocupante. A safra vai terminar com 87 mil toneladas nos armazéns, um volume suficiente para nove dias. Nos cinco anos anteriores, o estoque cobria 38 dias.

O que ameniza essa preocupação é que a Conab trabalha com dados mais apertados do que a realidade, principalmente no caso do arroz.

Vlamir Brandalizze, especialista nos dois produtos, diz que a Conab estima que os estoques iniciais desta safra sejam próximos de 667 mil toneladas. Na avaliação dele, esse volume deve ser de 1 milhão de toneladas.

Já o estoque final, estimado pela Conab em 283 mil, deverá atingir pelo menos 500 mil toneladas, segundo ele.

Mesmo assim, Brandalizze admite que a situação desses dois produtos exige cuidados, principalmente a do feijão, um produto de pouca oferta no mercado externo.

Esse cenário adverso ocorre, em boa parte, devido aos sérios problemas climáticos vividos pelo país.

O excesso de chuva no Sul prejudicou o plantio de arroz, que foi reduzido em 12%. Com isso, a safra recua para 11,2 milhões de toneladas, 10% inferior à anterior.

O efeito climático foi tão forte na produção de arroz que apenas 13% das lavouras já foram colhidas no Rio Grande do Sul, ante 44% em igual período de 2015.

IMPORTAÇÕES

Com produção menor, crescem as importações de arroz, que deverão chegar a 1,2 milhão de toneladas, 42% mais do que a média dos cinco anos anteriores.

"O problema das importações é o câmbio", diz Brandalizze. O dólar a R$ 4 fará com que o preço do produto importado chegue ao mercado interno a pelo menos R$ 50 por saca de 50 quilos.

A saca está sendo negociada a R$ 40 em algumas regiões produtoras e deverá recuar com a chegada de mais produto novo no mercado, à medida que avança a safra.

A importação vai forçar a alta do preço interno. Atualmente entre R$ 11,50 e R$ 12 por pacote de cinco quilos, o arroz poderá subir para R$ 14 a R$ 15 para o consumidor.

Apesar desse cenário difícil, o consumidor não deverá abandonar o arroz. "Mesmo subindo, o produto ainda vai custar menos do a carne moída", diz Brandalizze.

No caso do feijão, a situação é um pouco mais complicada, na avaliação dele. O consumo se mantém em 3,35 milhões de toneladas, acima da produção de 3,3 milhões.

A oferta de feijão é da mão para a boca. O produto sai do campo e já vai para o mercado consumidor. Excesso de chuva e doenças prejudicaram a produção.

Além disso, o vazio sanitário (proibição de plantio em determinado período do ano) e preços favoráveis do milho impediram ainda mais o avanço da cultura.

Muitos dos produtores tradicionais de feijão optaram pelo plantio do milho, devido aos bons preços do cereal.

No caso do feijão, a importação é mais complicada. Ela deverá ser de 200 mil a 300 mil toneladas, podendo vir da Argentina, da China, dos EUA e de Mianmar.

A taxa de câmbio, no entanto, vai ser decisiva para essas importações. O preço do feijão-carioquinha vai de R$ 5 a R$ 8 por quilo para o consumidor. Uma alta de R$ 2 nesse valor já inibiria o consumo, segundo Brandalizze.

Por Mauro Zafalon

Vaivém das Commodities

Mauro Zafalon é jornalista e, em duas passagens pelaFolha, soma 40 anos de jornal. Escreve sobre commodities e pecuária. Escreve de terça a sábado.

Fonte : Folha

Compartilhe!