Vaivém: Demanda artificial por alimento básico pode prejudicar pequenos produtores

Outro ponto preocupante são os custos de produção que se elevam

17.ago.2020 às 23h15

A agropecuária vive uma situação inédita. Apesar da crise causada pelo coronavírus, a maioria dos preços agrícolas pagos aos produtores está em patamares elevados e, em muitos casos, são recordes.

Os produtos que vão para o mercado externo têm preços garantidos pelo dólar alto e pela intensa demanda externa. Internamente, os itens básicos —arroz, feijão e farinhas— também têm sustentação de preços pela demanda. Ela vem da melhora de renda das famílias de menor poder econômico, aquecida pelo auxílio emergencial.

A saída dessa crise, porém, preocupa, diz Nicole Rennó, pesquisadora do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada).

O grande produtor deverá continuar sendo favorecido pela demanda externa e pelo câmbio. O pequeno, voltado mais para o mercado interno, deverá ter uma saída da crise mais complicada.

A demanda atual pelos produtos básicos é artificial, vinda do programa emergencial. Ela não poderá ser mantida por longo prazo.

Lavradores trabalham em plantação de alface orgânica da propriedade de José Menino, em 22 de julho de 2005, em Verava, Ibiúna, São Paulo

Pequeno produtor, voltado mais para o mercado interno, deverá ter uma saída da crise mais complicada – Renato Stockler

Outro ponto preocupante é que os custos de produção estão se elevando, puxados pelo câmbio e pelo bom momento dos preços agrícolas.

A alta de preços dos produtos dá melhor margem aos produtores, mas permite também um ajuste de margens das fornecedoras de insumos.

A pressão maior desse aumento recai sobre os pequenos e médios, os de menor escala e voltados basicamente para o mercado interno. Os grandes têm mais poder de barganha.

Rennó diz que esse cenário favorável para os preços agrícolas tem como fator comum o dólar e a demanda. Eles poderiam ser ainda maiores, contudo, não fosse a produção recorde deste ano.

A agricultura sempre tem uma característica de resiliência nas crises. A decisão de produção ocorre antes, segundo ela. No caso de 2020, os produtores já tinham definidas suas intenções de plantio antes da pandemia. Além disso há uma essencialidade dos alimentos, o que segura a demanda.

Das duas dezenas de produtos acompanhados pelo Cepea, poucos têm preços em queda. Açúcar é um dos destaques na alta.

DIGITAL NO NORDESTE

A agricultura digital está chegando ao pequeno produtor do Nordeste. Parceria entre o IICA (Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura), o Ministério da Agricultura e a ONG Precision Agriculture for Development vai implementar um programa de consultoria agrícola digital na região. As informações, de fácil compreensão, chegarão aos produtores via telefone, um meio de comunicação bastante difundido até mesmo entre os pequenos produtores. Esse primeiro plano piloto a ser desenvolvido visa dar assistência técnica, sem custos, para produtores que atuam com ovinos, caprinos e produção de milho e de feijão. O programa de assistência é fornecido pelo PAD, que tem como um dos fundadores Michael Kremer, Nobel de Economia de 2019. A organização já atua no desenvolvimento de 3,7 milhões de trabalhadores em oito países da África e da Ásia. O objetivo é atingir 100 milhões de pequenos agricultores.

Biodiesel Para a BR Distribuidora, a decisão da ANP e do Ministério de Minas e Energia de reduzir temporariamente a mistura de biodiesel no diesel de 12% para 10% foi acertada e necessária para garantir o abastecimento de óleo diesel.

Melhor caminho Para a BR, a pandemia da Covid-19 trouxe muita imprevisibilidade, e a flexibilização é o melhor caminho, devido ao impacto na oferta de biodiesel. A cadeia desse combustível criticou muito a decisão de redução.

Soja Apesar do volume já exportado, as vendas externas da oleaginosa continuam superando as de 2019. Foram 731 mil toneladas por dia útil neste mês, 26% a mais.

Troca de comando O atual presidente da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), Francisco Turra, deixa a presidência da entidade nesta semana. Em seu lugar, assume Ricardo Santin, atual diretor-executivo.

Vaivém das Commodities

A coluna é assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, formado em jornalismo e ciências sociais, com MBA em derivativos na USP.

Fonte: Folha

Compartilhe!