Vaivém – Colheita avança, mas preço do arroz não cede

A saca é negociada entre R$ 84 a R$ 86 no campo; exportação e demanda interna ajudam

A colheita de arroz caminha para a reta final. Restam apenas 10% para serem colhidos, mas os preços não cedem. A saca está entre R$ 84 e R$ 86 nas lavouras no Rio Grande do Sul, principal produtor nacional.

Nos anos anteriores, o valor era de R$ 45 a R$ 50 neste mesmo período. O cereal, no entanto, não deverá ceder muito em relação aos valores atuais, embora a safra tenha surpreendido.

A produção deverá ficar próxima de 8,4 milhões de toneladas no estado. Mesmo com esse volume, os produtores colocam pouco cereal no mercado atualmente.

Na avaliação de Vlamir Brandalizze, analista do setor, cerca de 35% da safra já foi comercializada, um volume abaixo dos 50% de anos anteriores.

Dois produtores seguram grãos de arrozProdutores de arroz orgânico do MST, em Eldorado do Sul (RS) – Alex Garcia/Divulgação

O agricultor comercializa pouco cereal porque neste ano, ao contrário dos anteriores, está capitalizado. Prefere vender soja, que tem preços recordes. Além disso, as exportações também são favoráveis. O mercado externo está mais calmo. A Tailândia, em busca da segunda posição como exportadora mundial, coloca mais arroz à venda.

Mesmo assim, o patamar do dólar torna as exportações rentáveis para o produto nacional. O Brasil vai liberar a exportação de 75 mil toneladas, sem taxa, para o México. Se as negociações ocorreram próximas de US$ 350 por tonelada, a saca equivaleria a R$ 95 no porto de Rio Grande.

Segundo Brandalizze, o arroz brasileiro tem um bom mercado na América Latina. A Venezuela é um dos principais, apesar das desavenças políticas do governo brasileiro com o país vizinho.

Os venezuelanos têm adquirido boa parte do produto brasileiro. Eles compram o cereal nacional, mas o pagamento é feito pelos chineses, que, em troca, adquirem petróleo na Venezuela.

Neste mês, o Brasil já colocou 28 mil toneladas de arroz em casca e outras 34 mil de beneficiado no mercado externo, conforme dados divulgados pela Secex (Secretaria de Comércio Exterior), na segunda-feira (26).

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Segundo o Ibre, o preço das matérias-primas brutas, como soja, milho, carnes e minério de ferro, acumula alta de 68% nos 12 meses encerrados em outubro

Segundo o Ibre, o preço das matérias-primas brutas, como soja, milho, carnes e minério de ferro, acumula alta de 68% nos 12 meses encerrados em outubro Mauro Zafalon/Folhapress

Com isso, o cereal não deverá voltar ao recorde de R$ 110 por saca atingido no ano passado, mas o consumidor vai continuar pagando, em média, R$ 25 pelo pacote de cinco quilos no supermercado. Os preços variam de R$ 18 a R$ 30, dependendo da qualidade do produto.

Os produtores que ainda têm dívidas oriundas do passado são obrigados a colocar parte de sua produção no mercado. Os mais capitalizados, porém, aguardam os próximos meses, quando os preços ganham mais corpo.

Com o retorno do auxílio emergencial, as indústrias e varejo têm de repor estoques, não permitindo grandes recuos nos valores de negociações.

Pesquisa do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) mostrou que a saca de arroz foi negociada a R$ 86,63 nesta quarta-feira (28) no Rio Grande do Sul. No final de março, a saca valia R$ 87; há 12 meses, R$ 56,68.

A coluna é assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, formado em jornalismo e ciências sociais, com MBA em derivativos na USP

Vaivém das Commodities

Fonte : Folha

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