Vaivém – China quer renegociar preços da carne bovina do Brasil

Volume recorde de importação chinesa elevou o preço do boi, fez subir a carne e afetou custos da indústria brasileira

As negociações Brasil e China no setor de carne bovina passam por um soluço. Os importadores chineses não querem mais pagar os preços acertados pela carne e propõem uma renegociação dos valores.

Na avaliação deles, os preços estão elevados, os lucros da indústria são grandes e o câmbio permitiria um novo acerto.

Essa renegociação afeta pequenos e grandes frigoríficos, mas os que estão chegando agora ao mercado chinês, devido à ampliação de indústrias habilitadas a exportar para o país asiático no final de 2019, estão com mais dificuldade nessas renegociações.

Na foto, um filé está cortado em tiras, servido em um prato branco com uma pimenta dedo de moça ao lado"A oferta de gado no pasto é pequena, os preços do boi vão se manter elevados, próximos de R$ 190 por arroba, e os valores que a China quer pagar não cobrem os custos da indústria nacional". – Letícia Moreira – 8.dez.2010/Folhapress

Muitos deles fizeram empréstimos para as operações de embarque e agora têm dificuldades para receber os valores acertados. Essa mudança de preço proposta pelos importadores ocorre tanto em produtos que ainda estão em navios em direção à China quanto nos que já chegaram ao país.

Na avaliação dos brasileiros, os preços realmente subiram muito, principalmente nos meses finais de 2019. Quem elevou esses valores, porém, foi a própria China.

Ao aumentar as compras de carne em plena entressafra de bois no Brasil, os chineses provocaram uma explosão nos preços do animal no pasto. Os valores chegaram a R$ 231 por arroba. Agora estão em R$ 192, segundo o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada).

As indústrias brasileiras pagaram esses valores elevados e a renegociação nos patamares propostos pelos importadores não cobriria os custos do boi e da operação de exportação.

Após um grande frigorífico da América do Sul fazer negócios recentes com os chineses a preços menores, eles querem esse novo valor como parâmetro.

Segundo o dirigente de um sindicato do setor, há um novo contexto preocupante. A oferta de gado no pasto é pequena, os preços do boi vão se manter elevados, próximos de R$ 190 por arroba, e os valores que a China quer pagar não cobrem os custos da indústria nacional.

Com isso, haverá redução de oferta de carne para os chineses no primeiro semestre.

Alguns exportadores estão tentando desviar a carne para o Irã, outro importante comprador do Brasil, mas os negociadores do país persa seguramente vão levar em consideração esse novo cenário.

A China importou um volume de carne sem precedentes no ano passado, devido à peste suína africana no país. Estimativas indicam compras no valor de US$ 14 bilhões.

Restaurantes têm que driblar alta da carne

Restaurante da Cidade Patriarca (zona leste da capital paulista) teve que aumentar os preços do filé mignon à parmegiana e o da picanha.

Restaurante da Cidade Patriarca (zona leste da capital paulista) teve que aumentar os preços do filé mignon à parmegiana e o da picanha. Bruno Santos/Folhapress

Só no Brasil, as compras de carne bovina pelos chineses somaram 494 mil toneladas, 53% mais do que em 2018.

Somado o volume que o país destinou a Hong Kong, o total é de 837 mil toneladas. As exportações totais do Brasil atingiram 1,89 milhão de toneladas no período.

Os dados semanais da Secex (Secretaria de Comércio Exterior) indicam que os preços, por ora, continuam elevados. Nas três primeiras semanas deste mês, o valor médio da tonelada de carne bovina foi de US$ 5.069, com alta de 35% em relação a igual período de 2019.

A forte presença chinesa não se restringiu ao Brasil. A China liderou as compras também na Argentina, no Uruguai e na Austrália. Neste último país, os chineses desbancaram japoneses, americanos e coreanos no volume e no preço.

Os chineses importaram o recorde de 300 mil toneladas de carne bovina da Austrália no ano passado e pagaram 16% mais pelo produto do que os japoneses. Em relação aos valores da própria importação em 2018, pagaram 21% pela tonelada.

Vaivém das Commodities

Vaivém das Commodities

A coluna é assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, formado em jornalismo e ciências sociais, com MBA em derivativos na USP.

Fonte : Folha

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *