Vaivém: Brasil já era líder mundial na produção de soja e não sabia

Revisão de dados pela Conab mostra que brasileiros superaram americanos já na safra 2017/18

25.ago.2020 às 20h48

O Brasil já era líder mundial na produção de soja em 2018, e não sabia. Há três anos, ninguém entendeu como o país conseguiu exportar 84 milhões de toneladas da oleaginosa.
Os números de produção, de estoque e de consumo interno não permitiam se chegar a um volume tão elevado de vendas externas.
A pergunta era: de onde saiu tanta soja? A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) deu a resposta nesta terça-feira (26).
Colocados em xeque pelo mercado, os dados brasileiros de produção dos anos recentes foram revisados, e o órgão governamental constatou que, apenas nas últimas três safras, a produção de soja foi 12,4 milhões de toneladas acima do que tinha sido apurado antes. Consideradas as sete safras mais recentes, o aumento foi de 14,4 milhões.

Colheira de soja na fazenda Lagoa Santa em Guaíra, no interior de SP

Colheira de soja na fazenda Lagoa Santa em Guaíra, no interior de SP Ricardo Benichio/Folhapress

Sergio de Zen, diretor-executivo de Política Agrícola e Informações da Conab, diz que os levantamentos de produção foram se perdendo ao longo do tempo e houve a necessidade de um ajuste.
Guilherme Soria Bastos Filho, diretor-presidente da Conab, destacou que dados e inteligência agropecuária são importantes para a condução do setor de forma estratégica e essencial. Toda a sociedade se beneficia.
O principal problema estava na apuração da produtividade. Os novos números da Conab indicam que ela foi, na verdade, 3,6% superior ao que se estimou nas três safras mais recentes. Nas anteriores, o desvio foi menor.
A Conab está incorporando novos métodos de levantamento de safra, inclusive com viagens a campo a serem feitas pela equipe de pesquisa.
Dentro desses novos critérios, a entidade governamental está revisando a safra atual de grãos para 257 milhões de toneladas. Para 2020/21, a produção deverá atingir 279 milhões.
Os grandes saltos no próximo ano serão de soja, milho e arroz, itens que somam 93% da produção nacional de grãos.
Os 37,9 milhões de hectares que serão destinados à cultura da soja deverão render 133,5 milhões de toneladas em 2021. Esse aumento de área em 2,8% será sustentado pelo crescimento das demandas interna e externa.
Manutenção de bons preços e boa rentabilidade também incentivam o produtor a aumentar a área de cultivo.
Com demanda externa e câmbio favoráveis, as exportações brasileiras deverão subir para 87 milhões de toneladas no próximo ano. Neste ano, ficam em 82 milhões.
O milho também registrará boa evolução em 2020. A safra deverá atingir 113 milhões de toneladas, 12% mais do que a deste ano.
Preços bons, embalados pela produção de proteínas e pela demanda externa, vão incentivar o produtor a aumentar a área semeada com milho para 19,8 milhões de hectares, 7% mais do que na atual.

Folha percorre 1.500 km da BR-163; Início do novo trecho de asfalto inaugurado pelo governo Bolsonaro em  fevereiro (2020); a obra é apresentado pelo presidente como um dos grandes feitos de seu governo

Folha percorre 1.500 km da BR-163; Início do novo trecho de asfalto inaugurado pelo governo Bolsonaro em fevereiro (2020); a obra é apresentado pelo presidente como um dos grandes feitos de seu governo Zanone Fraissat/Folhapress

O consumo interno do cereal será de 72 milhões de toneladas no próximo ano, 5% mais. Já as exportações deverão atingir 39 milhões, 13% mais do que as atuais, mas inferiores às do ano passado.
Impulsionados pelos preços recordes, os produtores de arroz também vão elevar a área de plantio de arroz. A Conab estima uma evolução de 12%, o que poderá gerar uma produção de 12 milhões de toneladas.
A produção total de feijão —são três safras no ano— poderá atingir 3,18 milhões de toneladas em 2020/21, com crescimento de 5,4%. A área fica estável, em 2,9 milhões de hectares, mas a produtividade sobe 5,5%, segundo estimativas da Conab.
Assim como fez com a soja, o órgão governamental vai revisar as produções de milho, café, algodão, arroz, trigo e feijão.
O bom desempenho da agropecuária tem permitido ao setor, apesar da crise do coronavírus, manter um ritmo positivo. Neste ano, o PIB do setor deverá aumentar 1,5%. No ano que vem, 3,2%.
As estimativas são do Ipea, que vê melhor desempenho das lavouras neste ano: alta de 3,6%, Em 2021, a pecuária, que terá evolução de 5%, superará os 3,2% das lavouras.

Vaivém das Commodities

A coluna é assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, formado em jornalismo e ciências sociais, com MBA em derivativos na USP.

Fonte: Folha

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