Vaivém – Biden deve aliviar tensão com China, e agro brasileiro pode perder terreno

Os agricultores dos Estados Unidos votaram em peso em Donald Trump na eleição de 2016. O seu governo, porém, foi um estrago para o setor.
Mesmo diante dos números adversos, seus adeptos continuavam acreditando que as coisas pudessem melhorar no governo do republicano.
A saída de Trump do governo, nesta quarta (20), deixará as negociações internacionais de produtos agrícolas em bases mais sustentáveis.
Trump saiu de acordos comerciais, desrespeitou regras de comércio, enfrentou grandes compradores de produtos agrícolas e restringiu as negociações comerciais de produtos com quase todos os mercados. Ganhou espaço no Norte da África, onde as negociações são de apenas US$ 1,5 bilhão por ano, mas perdeu nos principais mercados.

Soldados descansam no Centro de Visitantes do Capitólio, em Washington; Guada Nacional está presente desde a invasão por apoiadores do presidente Donald Trump

Soldados descansam no Centro de Visitantes do Capitólio, em Washington; Guada Nacional está presente desde a invasão por apoiadores do presidente Donald Trump Saul Loeb/AFP

Sempre à procura de seguir os passos do ídolo do hemisfério Norte, o governo de Jair Bolsonaro tentou acompanhar sua política desastrosa. Indispôs-se com a China, maior importador brasileiro de grãos, com os árabes, ao tentar a transferência da embaixada em Israel, e com o Irã, um dos principais importadores de alimentos do Brasil.
Aqui, diferentemente do que ocorreu nos EUA, o próprio setor e seus representantes frearam as ações do presidente. Nem mesmo o braço agrícola do gabinete do ódio teve êxito.
A ignorância de alguns era tanta que chegaram a propor a troca das vendas de soja da China para o EUA. Sem conhecer o setor, mal sabiam que os americanos tinham um estoque recorde de 22 milhões de toneladas de soja devido às intrigas com os chineses.
O enfrentamento de Trump com o mercado internacional fez bem ao Brasil. Nos quatro anos do governo do republicano, o Brasil exportou o correspondente a US$ 395 bilhões em produtos agropecuários no mercado internacional, 7% mais do que no período imediatamente anterior.
Já os americanos, que exportaram US$ 140 bilhões em 2018, quando Trump iniciou a guerra comercial com a China, reduziram esse valor para US$ 130 bilhões de janeiro a novembro do ano passado.
Enquanto os norte-americanos perderam espaço nas exportações para a Ásia, os brasileiros se fortaleceram. Em 2017, início do governo Trump, o Brasil exportou US$ 23 bilhões em alimentos para a China.
No ano seguinte, acirramento da guerra comercial, as vendas externas brasileiras subiram para US$ 31 bilhões para aquele país. A soja sempre esteve como um dos fatores importantes nas exportações dos dois países.
Em 2016, os americanos venderam US$ 14 bilhões de soja em grãos para os chineses. Em 2018, esse valor recuou para US$ 3,1 bilhões.
Em 2020, após o acordo da chamada “fase 1” e com o esgotamento dos estoques de soja no Brasil e na Argentina, os chineses se voltaram para os Estados Unidos. O comércio entre os dois países foi melhor em 2020 do que em 2019.
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O Brasil não ganhou terreno dos americanos apenas nas exportações de grãos, mas avançou também em outras áreas, tanto em volume como em novos mercados. Boa parte desse avanço, no entanto, foi não só pela ausência dos americanos mas também pela eficiência dos produtores brasileiros.
Pelo segundo ano, o país supera os US$ 100 bilhões em exportações. Em 2020, foram US$ 101 bilhões, vindos principalmente de soja e seus derivados e das carnes.
No primeiro caso, as exportações atingiram o recorde de US$ 35,2 bilhões, com destaque para a soja em grãos, que somou US$ 28,6 bilhões.
As carnes vieram a seguir, trazendo US$ 17,2 bilhões para dentro do país. Os chineses foram decisivos na ampliação de mercado para os brasileiros nos dois produtos.
Os Estados Unidos poderiam ter concorrido mais efetivamente com o Brasil no mercado de carne, mas as pendências comerciais e as restrições sanitárias da China sobre o produto americano impediram esse avanço.
A era Trump chega ao fim, e os americanos poderão equilibrar mais as disputas comerciais de produtos agrícolas com os brasileiros, quando se trata de China.
O governo do democrata Joe Biden não deverá fazer grandes mudanças no comércio internacional de grãos, mas, com certeza, terminará os enfrentamentos com a China.
Nos últimos meses, os chineses se voltaram para o mercado americano. Em outubro e novembro, as compras chinesas de produtos agrícolas americanos aumentaram 64% em relação a igual período de 2019. As importações chinesas de soja subiram 58% no período, e as de carnes mais que dobraram.

Vaivém das Commodities

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A coluna é assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, formado em jornalismo e ciências sociais, com MBA em derivativos na USP.

Fonte : Folha

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