Vaivém: Após coronavírus, China acelera compras de alimentos, mas teme gargalos no Brasil

Além da chuvas nos portos, preocupam eventuais bloqueios na logística em razão da epidemia

O descompasso de ritmo entre a economia da China e a do resto do mundo preocupa os asiáticos.

Passado o momento pior da presença do coronavírus no país asiático, é hora de recompor importações, afetadas pelo vírus nos primeiros meses do ano.

Os chineses temem, porém, por dificuldades nas importações nos próximos meses.

Consumidores compram vegetais em mercado na província de  Liaoning, na China
Consumidores compram vegetais em mercado na província de Liaoning, na China – 10.mar.20/AFP

Neste período do ano, o Brasil é o grande fornecedor de soja para a China. A saída de mercadorias em fevereiro, contudo, foi afetada por chuva nos portos, sobrecarregando os embarques de março.

Neste mês, contudo, notícias de eventuais greves nos portos deixam os chineses apreensivos, uma vez que eles necessitam de muita soja para recompor estoques de farelo, utilizado nas rações.

Uma das preocupações é que, exatamente no período de pico das exportações brasileiras de soja para a China –abril e maio–, o Brasil poderá viver o pico da incidência do coronavírus no país, segundo Daniele Siqueira, analista da AgRural.

Preocupados com possíveis problemas nas importações de commodities, os chineses, embora o Brasil esteja em plena safra, começam a importar soja também dos Estados Unidos.

O Usda (Departamento de Agricultura dos EUA) informou que o país vendeu 120 mil toneladas de soja na semana passada. Embora o órgão não tenha informado o destino dessa soja, o mercado aposta que ela foi para portos chineses.

Com as perspectivas de uma melhora no ritmo econômico interno, a China está elevando também os estoques de outros produtos, tais como sorgo, milho, trigo e carnes.

Comprou próximo de 700 mil toneladas de milho dos Estados Unidos e 340 mil de trigo. As maiores compras são de sorgo, uma vez que as importações chinesas já atingiram, em março, o volume de vendas projetado pelo Usda para toda a safra.

Os chineses vão continuar comprando muita soja do Brasil, mas há um nervosismo deles com os sinais desencontrados no país.

Além da colheita tardia e das chuvas que atrapalharam as exportações, agora o país vive momentos de incertezas devido às medidas isoladas tomadas por municípios e estados na logística, muitas delas contrariando as normas federais, segundo Siqueira.

As exportações brasileiras de soja deste mês deverão atingir um patamar recorde para o período. No ritmo das três primeiras semanas, sairão mais de 10 milhões de toneladas do produto pelos portos brasileiros neste mês.

Ao contrário da soja, porém, boa parte das demais commodities exportadas pelo Brasil perdeu ritmo neste mês, tanto em relação a fevereiro como em comparação a março de 2019.

A carne suína foi uma exceção. O país deverá exportar 70 mil toneladas de produto "in natura" neste mês, mantendo o patamar médio diário de fevereiro, mas superando os de dezembro e de março do ano passado.

O setor sucroalcooleiro, o quinto maior em importância para a balança comercial brasileira no ano passado, é um dos mais afetados no momento.

As vendas externas de açúcar em bruto recuaram 13% neste mês. Além das dificuldades externas com a açúcar, o setor deverá ter problemas internos no setor de etanol.

O preço baixo do petróleo afetará a rentabilidade das usinas. Além disso, o isolamento social da população afetará o ritmo de transportes, e a demanda por etanol será menor.

A demanda por alimentos continua, mas a recessão mundial deve derrubar os preços externos das commodities, o que já vem ocorrendo com alguns itens como soja, milho e carnes bovina e de frango.

O patamar de US$ 102 bilhões em receitas com exportações de produtos do agronegócio, atingido em 2018, fica um pouco distante em 2020.

Vaivém das Commodities

A coluna é assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, formado em jornalismo e ciências sociais, com MBA em derivativos na USP.

Fonte: Folha