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Vaivém – Apesar do acordo, soja cai nos Estados Unidos

No Brasil, dólar e compras chinesas seguram os preços

O mercado não está acreditando muito na assinatura do acordo entre Estados Unidos e China [1]. A soja, um dos principais itens envolvidos nas negociações, recuou pelo segundo dia seguido na Bolsa de Chicago.

O contrato de março [2] fechou em US$ 9,24 nesta quinta-feira (16), com recuo de 2% em relação ao valor do dia anterior ao da assinatura do acordo.

Dois motivos para a queda. Primeiro, não há uma definição de quanta soja os chineses deverão comprar [3] dos americanos.

Centro de Pesquisa e Tecnologia do Oeste Baiano realiza estudos com uso de Pivô de irrigação em terras destinadas à Soja no Matopiba. Uso da água na região preocupa especialistas em recursos hídricos no Brasil, pelo elevado uso de águas do aquífero Urucuia para irrigação. Centro de Pesquisa e Tecnologia do Oeste Baiano realiza estudos com uso de Pivô de irrigação em terras destinadas à soja no Matopiba; Soja recua pelo segundo dia seguido na Bolsa de Chicago – Raul Spinassé – 11.dez.2019/Folhapress

Em segundo lugar, o dólar elevado no Brasil torna o produto brasileiro mais atraente para os chineses. Mesmo com a assinatura do acordo, eles continuavam adquirindo soja brasileira nesta quinta-feira.

Internamente, o prêmio pago pelo produto brasileiro nos portos e os preços no campo tiveram poucas variações. Em Sorriso (MT), a saca foi negociada a R$ 73,75 nesta quinta, segundo a AgRural.

A avaliação nacional dos reflexos do acordo da chamada "fase um" entre Estados Unidos e China [4] ficou muita focada na soja.

A oleaginosa é um dos principais produtos agrícolas importados pela China, mas a não determinação do volume no acordo dá margem para os chineses buscarem outros mercados fornecedores.

A gama de produtos importados pela China dos Estados Unidos é muito grande e os chineses vão diversificar essas compras para não ficarem presos a poucos produtos —como a soja— e, consequentemente, a preços elevados.

Os negociadores já avisaram que se comprometem a comprar mais dos Estados Unidos, mas com preços de mercado. Não deixarão, segundo eles, os parceiros tradicionais.

Os US$ 12,5 bilhões deste ano a serem elevados às importações de US$ 24 bilhões de 2017 deverão vir não apenas de commodities agrícolas, mas também de produtos de maior valor agregado, uma necessidade crescente na China com a urbanização e o aumento médio de renda.

As carnes devem cooperar no acordo

As carnes são uma das saídas [5] para auxiliar os chineses a chegarem ao valor acertado. A queda na produção de carne suína, devido à peste suína africana, faz o país buscar proteínas em todo o mundo.

Um aumento da participação americana neste setor poderia até reduzir os preços internacionais para os chineses. Neste início de ano, os valores da carne estão bastante aquecidos.

Em 2017, ponto de partida das comparações de compras, os chineses gastaram US$ 662 milhões nos Estados Unidos na compra de carne suína e derivados. Nos primeiros nove meses de 2019, o valor já atingia US$ 1,04 bilhão.

Produtos importados chineses sobretaxados nos EUA [6]

As roupas chineses estão na mira do governo Trump, que ameça taxar itens de vestuário na nova lista de produtos chineses que serão submetidos à nova alíquota, de 10%

As roupas chineses estão na mira do governo Trump, que ameça taxar itens de vestuário na nova lista de produtos chineses que serão submetidos à nova alíquota, de 10% Wang Peng/Xinhua

O mesmo poderá ocorrer com as carnes de frango e bovina. A de frango, cujas vendas somavam US$ 300 milhões para os chineses há cinco anos, recuaram para apenas US$ 36 milhões em 2017.

As vendas de carne bovina também têm muito espaço para crescer. Em 2017 somavam só US$ 31 milhões. A abertura do mercado do país asiático para as proteínas americanas será importante para a chegada aos US$ 12,5 bilhões.

A demanda chinesa será tão grande nos próximos anos [7] que absorverá tanto o produto brasileiro como o americano.

No setor de grãos, os chineses devem elevar também as importações de trigo e de sorgo.

Há uma tentativa dos chineses de reorganizar a produção de carnes no país. Um limite imposto nas compras de milho pela China favorecerá a importação de sorgo e ampliará a de soja e a de DDGS, este último um produto resultante da fabricação de etanol de milho.

Em 2017, as compras chinesas de sorgo eram de 5 milhões de toneladas. Com a guerra comercial, caíram para 800 mil no ano passado. Há um bom espaço para uma retomada.

As compras de algodão e de celulose também desaceleraram e uma retomada aos patamares anteriores auxiliarão os chineses nessa meta de gastos agrícolas nos EUA.

As perdas do Brasil

As perdas do Brasil deverão ser espalhadas por diversos setores agropecuários, mas sem grandes consequências em todos eles.

O Brasil desenvolveu muito o mercado externo [8] na última década, e uma redução da China nas compras aqui permitirá aos brasileiros recolocarem o produto em outros mercados.

As bases do acordo para 2021 podem afetar mais a soja brasileira. Os americanos deverão elevar a área de plantio de soja e, se o clima ajudar, terão uma produção maior.

Mas, para chegar aos US$ 19,5 bilhões de aumento previsto no próximo ano, a China não se limitará à soja, mas deverá importar outros grãos, mais carnes e mais alimentos processados.

Vaivém das Commodities

Vaivém das Commodities

A coluna é assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, formado em jornalismo e ciências sociais, com MBA em derivativos na USP.

Fonte : Folha

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