Vaivém: Apesar da pandemia, cadeia do leite reagiu bem

Um dos mais afetados em abril, o setor está com demanda firme e preços em altaO isolamento social e a brusca mudança do ritmo da atividade econômica no início da pandemia trouxeram muitas incertezas para o setor de leite.

Havia preocupação não só com a coleta e distribuição do produto, mas também com a demanda. O cenário, então, era bastante desconhecido.

O comportamento do consumidor de formar estoques em março confundiu até a indústria no mês seguinte, quando a demanda recuou.

Os sinais, até então, eram de queda de consumo. Em maio, porém, a situação se estabilizou e em junho a demanda cresceu forte. Passados quatro meses, o setor está equilibrado, com produção e escoamento fluindo bem.

Um dos problemas mais graves, tanto para a indústria como para o produtor, será a perda de renda dos consumidores

Criação de gado – Pierre Duarte/Folhapress

Vicente Nogueira, da Câmara de Leite do Sistema OCB (organização das cooperativas do país), diz que duas coisas foram importantes neste período.

“Primeiro, aprendemos com a pandemia. Segundo, ela consolidou a demanda por alimentos no país.” O auxílio emergencial ajudou na manutenção da demanda da população de menor renda e as classes com maior poder aquisitivo aprenderam a comer melhor, diz ele.

O principal temor do setor era com o fechamento da cadeia de alimentação fora do lar, principalmente pelo efeito que traria ao setor de queijos, que consome 30% da produção de leite do país.

Mesmo com as restrições na alimentação fora do lar, a demanda não caiu porque o consumidor migrou para o supermercado.

Para Nogueira, o setor está bastante equilibrado e com demanda firme. Houve aumento de custos para os produtores, principalmente pela alta dos grãos, mas foi compensado pela indústria.

O representante do Sistema OCB diz que a cadeia de laticínios está cada vez mais próxima da autossuficiência, com as importações representando de 1% a 2%.

Neste semestre, devido ao valor elevado do dólar, as compras externas tiveram uma redução de 200 milhões de litros. E isso ajudou o produtor nacional.

Fábrica da Nestlé em Araras (SP), que produz itens como achocolatados e cafés, não parou durante a pandemia, mas empresa reforçou limpeza e mudou procedimentos de segurança

Fábrica da Nestlé em Araras (SP), que produz itens como achocolatados e cafés, não parou durante a pandemia, mas empresa reforçou limpeza e mudou procedimentos de segurança Eduardo Knapp/Folhapress

Usando a imagem de um campeonato de futebol, Nogueira diz que o primeiro turno foi melhor do que se esperava, mas o segundo continua com interrogações.

Julho foi um divisor de águas, mas como estará a demanda nos próximos meses? O auxílio emergencial vai continuar até quando?, pergunta ele.

A oferta de leite virá, mas, se a demanda cair, o país não tem uma política para lidar com o excedente do produto. O descarte de vacas leiteiras ocorreu, mas em um número menor do que se previa inicialmente para esse período.

O preço do leite pago ao produtor em julho, referente ao produto entregue em junho, atingiu R$ 1,757 por litro, na média do país.

É o maior valor registrado para os meses de julho e o segundo maior de toda a série do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada).

Os preços do mês passado, deflacionados pelo IPCA, superaram em 16% os de junho e em 25% os de julho de 2019.

Vaivém das Commodities

A coluna é assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, formado em jornalismo e ciências sociais, com MBA em derivativos na USP.

Fonte: Folha

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