Vaivém – Ainda esquecida, Índia deverá ganhar importância para o agronegócio

Parcerias e diversificação de culturas podem abrir espaço a brasileiros, segundo informações dos presidentes da Embrapa e da UPL

O comércio agrícola entre Brasil e Índia é praticamente nulo. O Brasil exportou o correspondente a US$ 589 milhões em alimentos para os indianos e importou apenas US$ 71 milhões deles no ano passado, apesar do tamanho do mercado dos dois países.

No caso de insumos, os indianos estão entre os principais fornecedores de inseticidas para as lavouras brasileiras. Colocaram no Brasil o correspondente a US$ 275 milhões no ano passado, valor superado apenas pelas vendas dos americanos: US$ 506 milhões.

O cenário atual pode e deve ser modificado nos próximos anos, segundo o presidente da Embrapa, Celso Luiz  Moretti. O Brasil já ganhou o mercado externo em exportações e agora está na hora de fornecer tecnologia aos países produtores, principalmente as relacionadas à agricultura tropical.

Moretti acredita no mercado Brasil-Índia porque estão em andamento alguns acordos para uma incrementação dos negócios.

Ele cita o desenvolvimento de um programa voltado para a produção de “pulses” (grão de bico, lentilha e vários tipos de feijão), aqui no Brasil, com foco em exportações para a Índia.

No Brasil, o glifosato também é permitido, mas está sob reavaliação da AnvisaInseticidas estão entre os principais produtos fornecidos pelo indianos para as lavouras brasileiras – Getty Images

Esse projeto está sendo desenvolvido pela Embrapa e pela UPL, esta uma empresa indiana voltada para a combinação de produtos biológicos e químicos para a agricultura.

O consumo de “pulses” é muito grande na Índia e deve crescer muito nos próximos anos. E os indianos não têm condições de suprir a própria demanda.

A Embrapa está fazendo também um acordo com o Icrisat, um centro internacional de pesquisa em agricultura tropical do semiárido. Os dois países trocarão informações em diversas áreas, entre elas a de biotecnologia, agricultura digital e mudanças climáticas.

Para o presidente da Embrapa, o Brasil tem muita tecnologia desenvolvida para fornecer, mas também pode contar com centros de excelência na Índia. Desse contato entre os dois países vai surgir o estabelecimento de várias parceiras.

Moretti estende essa possibilidade de fornecimento de tecnologia brasileira também para a região do Oriente Médio. Com bom poder aquisitivo, devido à exploração do petróleo, esses países começam a investir muito em tecnologia na agricultura. O Brasil pode auxiliar na formação de instituições de pesquisas e na formação de mão de obra qualificada.

Fábio Torretta, presidente da UPL no Brasil, diz que é hora de o Brasil diminuir a dependência da China e estreitar mais as relações comerciais com a Índia, um país com crescimento contínuo e 1,3 bilhão de pessoas.

O Brasil tem tudo para diversificar seu cardápio de produção e acrescentar outros produtos às exportações, inclusive para a Índia.

Torretta afirma que as necessidades indianas de produtos agrícolas é grande e passam não só pelos “pulses”, como também pelo algodão — o país tem um grande parque têxtil— e por óleo de soja, hoje fornecido pela Argentina.

A troca de tecnologia também será importante para os dois. O presidente da UPL cita o caso do etanol. A Índia subsidia o açúcar e o Brasil tem a tecnologia da produção do álcool.

A produção de etanol provindo da cana-de-açúcar na Índia diminuiria a oferta de açúcar e melhoraria os preços mundiais. Já o etanol reduziria a poluição nas principais cidades indianas.

Para Torretta, há um bom caminho a ser percorrido entre os dois países no setor de proteção de plantas. Para ele, “a Índia está muito preparada na indústria química, mas com preocupações ambientais e uso da água”.

O presidente da empresa afirma que é importante o país sair da monocultura e ter novas opções de produção. Para isso, uma visita governamental na Índia ganha importância para o setor.

A ministra da Agricultura, Cristina Teresa, e Jair Bolsonaro estarão na Índia entre os dias 25 e 27 deste mês

Vaivém das Commodities.

Vaivém das Commodities

A coluna é assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, formado em jornalismo e ciências sociais, com MBA em derivativos na USP.

Fonte : Folha