Vaivém – Agropecuários sobem 53% no atacado em 12 meses, segundo IGP-M

Bolsonaro pressiona indústrias e varejo, mas origem das altas está no campo

Os produtos agropecuários acumulam alta de 53% nos últimos 12 meses no atacado, conforme dados apurados pelo IGP-M (Índice de Preços Geral do Mercado), da FGV.

É difícil entender a pressão do presidente Jair Bolsonaro sobre redes de supermercados e indústrias, por causa do aumento dos alimentos. O problema não é gerado pelas indústrias, mas sai do campo.

Há um ano, quando a FGV divulgou o IGP-M de outubro de 2019, os preços agropecuários no atacado ainda se comportavam bem.

Lavoura de soja no Mato GrossoLavoura de soja no Mato Grosso – Mauro Zafalon/Folhapress

A alta acumulada em 12 meses era de apenas 2,67%, com a ajuda de milho e de soja. Óleo diesel, minério de ferro e gasolina, contudo, tinham participações mais significativas no índice.

Começava a surgir naquele período um cenário de pressão que perdura até agora, e não tem dia para acabar. Na divulgação desta quinta-feira (29), a FGV indicou que todas as principais pressões no índice do atacado vieram da agropecuária.

Os preços podem não repetir o ritmo acelerado de aumento dos últimos meses e pararem de subir. A inflação se estabiliza. O bolso do consumidor, no entanto, terá de aguentar os novos patamares de valores de comercialização. A menos que haja um recuo dos preços, o que não parece estar próximo.

Em outubro do ano passado, a China começou uma investida pesada sobre a carne brasileira. Os preços iniciaram uma alta constante e não pararam mais. Boi e carne bovina passaram a ter presenças contínuas na lista das maiores pressões no atacado do IGP-M.

Acreditava-se, naquele final de ano, que o churrasco ficaria bem mais caro. Isso não só ocorreu como a carne estará cada vez mais distante do consumidor neste final de ano. Em 12 meses, a arroba de boi ficou 63% mais cara no campo.

A China ampliava também, em 2019, o enxugamento dos estoques da soja brasileira. A saca do produto, que está em R$ 164 no porto de Paranaguá nesta semana, custa 93% mais do que em outubro de 2019, segundo o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada).

Os preços elevados do grão puxaram os do farelo e os do óleo, que tiveram evoluções de 111% e de 116%, respectivamente, no mesmo período.

Restaurantes têm que driblar alta da carne

Restaurante da Cidade Patriarca (zona leste da capital paulista) teve que aumentar os preços do filé mignon à parmegiana e o da picanha.

Restaurante da Cidade Patriarca (zona leste da capital paulista) teve que aumentar os preços do filé mignon à parmegiana e o da picanha. Bruno Santos/Folhapress

Não adianta pressionar também a indústria de arroz por margens menores. Mesmo com a eliminação da alíquota de importação, o produto mantém preços recordes no campo, e a alta soma 126% nos últimos 12 meses.

O milho, outro item importante na composição da ração, está sendo negociado a preços nunca vistos no país. A saca está em R$ 83, uma evolução de 94% desde outubro do ano passado, aponta o Cepea.

Os motivos dessas altas já são conhecidos, e passam pela ação do governo. Sem cumprir as promessas de campanha, desencantou o mercado. A pandemia também fez sua parte.

Com isso, o dólar beirou os R$ 6, tornando os produtos brasileiros mais competitivos no mercado externo. O resultado foi uma saída histórica de cereais pelas fronteiras brasileiras.

Bom para os produtores, que devem encarar sua atividade como um negócio e buscar o lucro quando é possível. É o que está ocorrendo, devido às exportações recordes.

Ruim para os consumidores, principalmente para os de baixa renda. Eles têm nos alimentos uma das principais fontes de gastos mensais.

Enquanto isso, apesar de o país estar em uma das suas piores crises, tanto sanitária como econômica, o PIB (Produto Interno Bruto) do agronegócio acumulou alta histórica de 6,75% nos sete primeiros meses deste ano, segundo a CNA e o Cepea.

Vaivém das Commodities

Vaivém das Commodities

A coluna é assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, formado em jornalismo e ciências sociais, com MBA em derivativos na USP.

Fonte : Folha

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