Vaivém – Agronegócio racha, e efeitos da cisão recaem sobre o próprio setor

País não deve se submeter a exigências externas eventualmente absurdas, mas esclarecer seus meios de produção

O agronegócio vive um ciclo histórico de desenvolvimento no país. Produtividade, qualidade dos alimentos e, inclusive, preservação ambiental são marcas desse novo período. Alguns de seus líderes, no entanto, não acompanharam essa evolução e ficaram no passado.

Como em todos os setores da economia, o agronegócio também tem seus problemas e algumas coisas não funcionam exatamente como deveriam. Sempre existem os aproveitadores.

Daí um acirramento das discussões internas no próprio setor. Isso está levando a um intenso —e desnecessário— tiroteio, em que as balas perdidas podem afetar a todos. As posições acirradas da política foram levadas para o setor.

O país está sob os olhares do mundo no que tange a desmatamento e a incêndios. E seria interessante avaliar o porquê e o que realmente há de errado no momento. Generalizar e chamar produtores de devastadores e ONGs de guerrilheiras não fazem parte da solução.

Queimadas no Pantanal continuam

Carcaça de um jacaré queimado às margens da rodovia Transpantaneira, no Pantanal Mato-Grossense; os incêndios na maior planície alagada do mundo são uma tragédia devastadora para um dos biomas até então mais preservados do país

Carcaça de um jacaré queimado às margens da rodovia Transpantaneira, no Pantanal Mato-Grossense; os incêndios na maior planície alagada do mundo são uma tragédia devastadora para um dos biomas até então mais preservados do país Lalo de Almeida/Folhapress

Parte dos produtores simplesmente fecha os olhos para os problemas e julga que o estágio atingido pelo setor é suficiente o bastante para apagar os problemas.

Eles encamparam a política errônea do atual governo de não ver problemas internos, mas apenas ameaças externas.

Essas ameaças podem até serem exageradas, em alguns casos, mas seria uma boa hora para o setor, unido, separar o infrator do não infrator.

Não adianta voltar à Idade Média e dizer que a Europa devastou sua floresta, mas mostrar que, com base em uma legislação própria, o Brasil pode manter uma ocupação sustentável da região amazônica e de outros biomas.

Ao contrário de uma união esperada para uma avaliação conjunta de acertos e erros, acaba de haver uma cisão temerária entre a Aprosoja Brasil (representante dos produtores de soja) e a Abag (Associação Brasileira do Agronegócio).

Para a Aprosoja, não há mais convergência nos interesses das duas entidades. Essa diferença de interpretação da realidade brasileira aumentou depois que a Abag coordenou uma coalizão de mais de 200 entidades, do agronegócio e fora dele, para buscar meios de redução do desmatamento na Amazônia Legal.

Os produtores deveriam, na verdade, ser os mais interessados na resolução dos restritos problemas de sustentabilidade —em relação ao volume total da produção nacional— que ocorrem no campo. Afinal, o mercado externo tem grande importância tanto para a produção de grãos como para a de carnes brasileiros.

A ideia de que os consumidores externos têm de comer em nossas mãos e que, portanto, o país não precisa se preocupar está ultrapassada.

O Brasil tem potencial para aumentar a produção mundial de alimentos —daí também uma preocupação mundial dos competidores com o país—, mas não pode deixar de corrigir seus erros.

Grilagem de terras públicas, incêndios, questão fundiária e desmatamento irregular devem estar no foco das discussões.

A mesma tecnologia que permite ao Brasil elevar sua produtividade no campo está sendo inserida em outras áreas do mundo.

A competição será mais acirrada nos próximos anos, e o país tem de continuar ganhando mercado externo, mas sem deixar brechas para contestação nas formas de produção e de sustentabilidade.

O que deveria ser um consenso para discussões e soluções de problemas —nem sempre provocados pelo setor, mas sempre atribuídos a ele— não está ocorrendo.

O agronegócio deveria, unido, mostrar aos consumidores que está disposto a resolver os erros, mas que também tem uma legislação própria sobre a sustentabilidade referente a todos os biomas do país. E, claro, segui-la, embora os governos, federal e estaduais, têm feito pouco para permitir aos produtores se adequarem a essa legislação.

A cisão interna expõe ainda mais as fragilidades do setor e recairá sobre toda a atividade. Afinal, os consumidores externos contam muito nessa questão.

O país não deve simplesmente se submeter a exigências externas eventualmente absurdas, mas, pelo menos, esclarecer os seus meios de produção e as ações de sustentabilidade adotadas.

Vaivém das Commodities

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A coluna é assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, formado em jornalismo e ciências sociais, com MBA em derivativos na USP.

Fonte : Folha

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