Vaivém – Agro nunca exportou tanto, mas consumidor brasileiro sente no bolso

Câmbio incentiva exportações, e resultado é um encarecimento da alimentação internamente, elevando a inflação

A agropecuária viveu um primeiro semestre para não ser esquecido. Praticamente todos os principais itens da balança de exportação do agronegócio registraram recordes nos valores e nos volumes exportados neste período.

Os setores nos quais o volume de exportação não foi tão acentuado foram compensados pelos elevados preços internacionais.

Os motivos desse bom cenário para o agronegócio brasileiro neste primeiro semestre do ano já são conhecidos. A demanda externa está aquecida, os estoques de grãos estão em patamares perigosos, e os preços internacionais subiram.

Movimento do Porto de Paranaguá deve chegar aos 2 mil veículos por dia em março

Movimento do Porto de Paranaguá deve chegar aos 2 mil veículos por dia em março Claudio Neves/Portos do Paraná

No setor de proteínas, doenças em rebanhos de países que são grandes produtores e consumidores mantêm os preços externos aquecidos.

No caso específico brasileiro, o câmbio incentiva ainda mais as exportações, dando competitividade aos produtos nacionais e trazendo mais reais para o produtor.

O resultado é um encarecimento da alimentação internamente, elevando a inflação. O mercado internacional depende agora da nova safra de grãos, a de 2021/22.

Os bons preços animam os produtores a semear mais, mas o que vai determinar uma recomposição dos estoques internacionais é a evolução do clima.

Qualquer efeito climático um pouco mais sério na safra 2021/22 nos EUA e no Brasil colocará a oferta de grãos abaixo da demanda mundial.

Mas o Brasil acabou sendo vítima do excesso de exportações. Nos seis primeiros meses deste ano, o país teve de trazer do mercado externo 176% mais soja e 151% mais milho do que em igual período do ano passado.

Apenas em junho, final de colheita da soja e às portas da de milho, as importações desses dois produtos aumentaram 182% e 3.410%, respectivamente, ante junho de 2020.

Considerando apenas dez produtos analisados pela Folha, as receitas somam US$ 46 bilhões de janeiro a junho, 22% a mais do que em igual período anterior.

A boa evolução do primeiro semestre garantirá ao país um dos melhores anos em exportações agropecuárias. Com base nesse aumento de 22%, as receitas poderão superar US$ 120 bilhões.

Uma das dúvidas é o milho. Após a quebra de 19 milhões de toneladas no potencial inicial produtivo da safrinha, o país terá um volume bem menor para exportar. Algumas estimativas já indicam uma redução dos até 40 milhões de toneladas previstos para apenas 20 milhões.

A soja, mesmo com o aumento de importações neste ano, será, de longe, o principal item da balança no setor. Nos seis primeiros meses deste ano, o país já colocou um volume recorde de 59,4 milhões de toneladas da oleaginosa no mercado externo, obtendo US$ 25,6 bilhões.

Um setor que surpreendeu foi o de açúcar, cujas exportações renderam US$ 4,2 bilhões no primeiro semestre, alta de 33%.

O produto superou até os US$ 3,5 bilhões da carne bovina, um dos principias expoentes da balança comercial do agronegócio nos últimos anos devido às importações chinesas.

A China garante também o bom desempenho da carne suína, que teve aumento de 36% neste ano, acima da evolução obtida pelas exportações de frango, que foi de 9%.

Neste período de embalo das exportações, a madeira em bruto lidera a evolução percentual do semestre. O valor das receitas desse item, que não inclui a madeira trabalhada, é pequeno, em relação aos demais, somando US$ 110 milhões, mas é 120% superior ao de janeiro a junho do ano passado.

O algodão, tido como um produto que seria muito afetado pela pandemia, reagiu bem e atingiu receitas de US$ 1,8 bilhão no primeiro semestre do ano, 38% a mais do que igual período anterior, conforme os dados da Secex. Colheita de milho na zona rural de Planaltina, região administrativa do DF

Colheita de milho na zona rural de Planaltina, região administrativa do DF Pedro Ladeira/Folhapress

ICL ADQUIRE DIVISÃO AGRÍCOLA DA COMPASS

A empresa israelense ICL, líder em minerais especiais e especialidades químicas, concluiu a aquisição da divisão agrícola da Compass Minerals América do Sul S.A.

Com a aquisição, a ICL se posiciona como a líder em nutrição e fisiologia de plantas no Brasil, segundo a empresa.

Essa aquisição é importante porque impulsiona a expansão da ICL no Brasil e na região. Além disso, permite à empresa se dedicar mais às suas especialidades voltadas para nutrição e fisiologia, segundo Gustavo Vasques, CEO da ICL América do Sul.

A ICL tem foco maior na Colômbia, no Peru, na Bolívia e no Paraguai, além do Brasil, que é o carro-chefe quando se refere a investimentos.

A aquisição vai atender a dois propósitos globais da ICL, que é incentivar os investimentos em inovação, e a buscar mais acesso a mercado. O objetivo é ter uma presença forte junto a produtores, pecuaristas e clientes industriais, diz Vasques.

Com uma rede de 20 centros de pesquisas espalhados pelo mundo à disposição, a ICL América do Sul quer ter maior ação no campo da fertiirrigação e fazer mais investimentos no setor digital.

A coluna é assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, formado em jornalismo e ciências sociais, com MBA em derivativos na USP.


Vaivém das Commodities

Fonte : Folha

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