Vaivém: Agricultura lança plano de bioinsumos para reduzir dependência de importações

Brasil quer reduzir dependência em fertilizantes e outros insumos químicos importados

A agricultura brasileira dá o terceiro salto e passa a utilizar bases biológicas na atividade. Isso significa maior sustentabilidade no setor, menor custo de produção e maior renda para os produtores.

Nesta quarta-feira (27), o Ministério da Agricultura lança o Programa Nacional de Bioinsumos. O país poderá aproveitar a grande biodiversidade que tem e reduzir a sua dependência em fertilizantes e outros insumos químicos, em grande parte importada.

Cleber Soares, diretor de Inovação da Agricultura e há 19 anos pesquisador da Embrapa, diz que, após os saltos obtidos na revolução verde e no na diversificação da base produtiva nos anos anteriores, o mundo agrícola agora está migrando para a bioeconomia.

O Brasil vem se tornando um dos principais produtores mundiais de algodão. Na safra 2019/2020, o país deverá atingir o volume de 2,7 milhões de toneladas de pluma. Na imagem: colheita em fazenda no município de Cristalina, interior de Goiás

O Brasil vem se tornando um dos principais produtores mundiais de algodão. Na safra 2019/2020, o país deverá atingir o volume de 2,7 milhões de toneladas de pluma. Na imagem: colheita em fazenda no município de Cristalina, interior de Goiás Mauro Zafalon – 30.ago.18/Folhapress

A discussão não é recente, mas o tema agora ganha uma importância maior. Pela primeira vez, os bioinsumos estarão no Plano Safra do governo.

Os produtores terão crédito para custeio dos insumos e investimentos para o desenvolvimento de biofábricas em suas propriedades, já a partir do Plano Safra que será divulgado no próximo mês.

O bioinsumo é uma demanda que já vinha sendo exigida pela sociedade, que está à procura de produtos mais sustentáveis, e pelo produtor, que quer redução de custos na produção, afirma Soares.

Um dos principais produtores e exportadores de alimentos do mundo, o Brasil tem chances de ser também um dos propulsores dessa nova tecnologia.

Para Amália Borsari, diretora-executiva de biológicos da Croplife, o Brasil tem um vasto campo para pesquisas e desenvolvimentos de produtos e soluções na área de defensivos biológicos, devido à sua biodiversidade.

Ela destaca que o país tem uma grande área de agricultura tropical e está sujeito a uma infinidade de pragas. Por isso, o manejo é fundamental, e os defensivos biológicos são mais uma importante ferramenta nesse combate.

Para Álvaro Salles, diretor do IMA (Instituto Mato-Grossense do Algodão), a bioprospecção é importante, e o país tem de avançar nesse sentido.

O instituto atua em várias frentes e espera, entre cinco e dez anos, reduzir em 50% os gastos com químicos.

O mercado já tem vários produtos biológicos à disposição para o combate de pragas e doenças em plantas, animais e processamento pós colheita. Mas as pesquisas avançam cada vez mais em inoculantes, promotores de crescimento, biofertilizantes, produtos para nutrição vegetal e animal e defensivos a partir de micro-organismos.

O IMA tem uma biofábrica pronta para o estudo de bactérias em Primavera do Leste (MT), está finalizando uma de fungos em Campo Verde (MT) e inicia uma sobre vírus em Sorriso (MT).

O Programa Nacional de Bioinsumos foi desenvolvido pela Agricultura devido às necessidades de inovação dos segmentos agrícola, aquícola, florestal e pecuário.

Segundo Soares, é crescente a demanda por bioinsumos no Brasil. Pelo menos 10 milhões de hectares recebem produtos para o controle biológico de pragas e 40 milhões de hectares são cultivados com bactérias promotoras de crescimento de plantas.

Os insumos biológicos trazem uma economia anual de R$ 165 milhões com a aplicação de produtos para controle biológico de pragas. Já a redução de custos com a fixação biológica de nitrogênio chega a US$ 13 bilhões (R$ 72 bilhões) na cultura da soja.

O objetivo do programa na área vegetal é avançar em tecnologias com base biológica para eliminar pragas e doenças, além de elevar a oferta de biofertilizantes.

No setor animal, o programa visa a saúde —como vacinas e fitoterápicos—, alimentação —como rações— e até melhoras na qualidade das águas, no caso de aquícola.

Para o pós-colheita, a busca é de bioconservantes, insumos que preservem os alimentos na armazenagem e melhorem o processamento.

Nesta quarta, a ministra Tereza Cristina dará as diretrizes gerais da abrangência do programa e estabelecerá a criação de um comitê estratégico.

O ministério disponibilizará um site com as informações do programa, obras literárias sobre o assunto e o catálogo nacional de bioinsumos.

Soares diz que o desenvolvimento dos bioinsumos será bom para a cadeia produtiva como um todo, distribuindo melhor o desenvolvimento regional, gerando renda e mitigando custos.

Segundo a Croplife Brasil, o mercado de biodefensivos movimentou R$ 675 milhões no Brasil em 2019, com crescimento de 15% sobre 2018.

Carnes Em apenas 15 dias úteis, as receitas com as exportações somam US$ 1 bilhão e se aproximam das do total de maio de 2019, segundo a Secex (Secretaria de Comércio Exterior).

Bovina As exportações de carne bovina têm média de 5.652 toneladas por dia útil, 28% mais do que em maio de 2019. Nesse mesmo período, as exportações de carne de frango atingiram 18,6 mil toneladas diárias, com evolução de 15%.

Suínas O melhor desempenho entre as proteínas fica com a carne suína, muito desejada pelos chineses. As exportações médias deste mês sobem para 4.612 toneladas diárias, 71% mais do que em maio de 2019.

Soja Após um mês recorde de vendas externas em abril, a oleaginosa volta a ter exportações ainda mais acentuadas em maio. Já saíram 12,2 milhões de toneladas nos 15 primeiros dias úteis deste mês.

Vaivém das Commodities

A coluna é assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, formado em jornalismo e ciências sociais, com MBA em derivativos na USP.

Fonte: Folha