Vaivém: Economia afunda, mas boi mantém alta

 

Sustentação dos preços internos da arroba vem do mercado externo

Mesmo com a queda na demanda por carne bovina e com a redução nos preços da proteína praticados no mercado interno, devido à menor renda dos consumidores brasileiros, o preço do boi mantém alta no pasto.

Nesta semana, os pecuaristas receberam, em média, R$ 205 pela arroba do animal pronto para o abate, conforme cotações do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) da Esalq/USP.

Os preços atuais superam em 35% os de há um ano. Com isso, ficam confirmadas as estimativas do início deste ano de que, mesmo com uma situação econômica instável, os preços da carne seriam bem superiores aos de 2019.

Vários fatores mantêm os preços do boi em alta. Um deles é a China. O mercado externo fica com apenas 27% da produção de carne bovina brasileira. O apetite chinês neste início de ano, porém, inflaciona os preços internacionais, o que reflete no mercado interno de gado.

Nos 15 primeiros dias úteis de maio, as receitas com as exportações de carne bovina “in natura” já somam US$ 503 milhões, acima dos US$ 482 milhões de todo o mês de maio de 2019.

Os preços médios da tonelada de carne bovina recebidos pelos exportadores brasileiros subiu para US$ 4.406 neste mês, 14% mais do que em igual período do ano passado, conforme dados da Secex (Secretaria de Comércio Exterior).

A alta nos preços do boi gordo se deve também à chegada da entressafra, período em que os pastos perdem qualidade e há uma redução na oferta de gado.

O abate de vacas nos últimos anos também afeta o mercado atual, reduzindo a oferta de bois prontos para os frigoríficos.

O espaço para a queda da carne bovina no mercado interno, porém, é pequeno. Afinal, os principais competidores externos do Brasil têm sérios problemas na pecuária.

Os Estados Unidos, devido à Covid-19, fecharam muitos frigoríficos, reduzindo a oferta da proteína. Já a Austrália sofre sanções da China, principal importador mundial neste ano, devido ao alinhamento com os Estados Unidos na questão da origem do coronavírus.

Maio inesquecível As receitas com as exportações do agronegócio deste mês poderão ser as maiores na história da balança comercial brasileira do setor. Isso ocorrerá se a exportação de soja e de carnes da segunda metade do mês mantiver a mesma tendência da primeira.

Líderes Soja em grãos e carnes poderão atingir US$ 6,5 bilhões neste mês, valor que, se confirmado, superará em 48% o de maio de 2019. A balança do agronegócio deste mês é puxada ainda por açúcar e por algodão.

Efeitos no leite Os efeitos do coronavírus começam a ser sentido com mais intensidade pelo setor de leite. Os preços médios recebidos pelos produtores neste mês recuaram 5% em relação aos de abril e em 11% em comparação aos de maio de 2019, segundo o Cepea.

Atenção no açúcar Diante das incertezas econômicas, as usinas devem buscar oportunidades para se protegerem de possíveis quedas das cotações para níveis que comprometam rentabilidade da operação, alertam analista do Itaú BBA.

Busca de imunidade A procura por vitaminas que deem mais resistência ao organismo está por trás da evolução das exportações brasileiras de suco de laranja de 17% nesta safra 2019/20. A União Europeia importou 25% mais, segundo a CitrusBR.

Para pequenos A China tem um desafio diferente de Brasil e Estados Unidos, ao levar a agricultura para o campo digital. Os produtores chineses são muitos e com pequenas áreas, segundo o Rabobank.

Vaivém das Commodities

A coluna é assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, formado em jornalismo e ciências sociais, com MBA em derivativos na USP.

 

Fonte: Folha