Urgência contra o contágio

Com o agravamento da situação na Grécia e Espanha, os cenários se multiplicam sobre o futuro da zona do euro. E o contágio global começa a se materializar.

A união monetária volta para a beira do abismo. O que se tem hoje é o grande conflito entre problemas econômicos e políticas sociais, como nota o diretor-executivo para o Brasil e mais oito países no Fundo Monetário Internacional (FMI), Paulo Nogueira Batista Júnior, falando em nome pessoal.

Existe uma exaustão política e social. A nova fase da crise evidencia a contradição inerente aos programas de ajustamento, que tendem a se auto-derrotar: o profundo corte de gastos derruba o nível de atividade, a receita cai e solapa o ajuste fiscal. A recessão em boa parte dos países membros agrava a situação dos bancos, a inadimplência cresce, eles param de emprestar e solapam a economia real.

2012 se mostra decisivo para a união monetária europeia

Como a zona do euro representa uma grande parte da economia mundial, o contágio alcança o Brasil de maneira direta, pela queda da demanda europeia, exportando menos para o bloco europeu; e indireta, porque afeta o dinamismo de parceiros importantes brasileiros, como a China. A oferta de crédito internacional está secando e aumentam os prêmios de risco.

O grande problema é que o choque externo recessivo pega a economia brasileira quando está crescendo menos. Nogueira nota que o nível da atividade da indústria está fraco. Mas ele acha que a economia brasileira está possivelmente mais preparada do que em fins de 2008, com alguns amortecedores importantes, como situação fiscal boa, compulsórios bancários altos, bancos públicos aumentando a oferta de crédito, etc.

Ao seu ver, agora o governo precisa verificar se medidas já tomadas, como incentivos fiscais localizados, provocam reação suficiente ou se é necessário calibrar com ações adicionais.

Em todo caso, ele considera que a taxa de juro pode sofrer mais reduções. E vê a depreciação cambial também como ajuda para certos setores.

A presidente Dilma Rousseff terá na cúpula do G-20, em junho no México, nova ocasião com outros emergentes para pressionar a Europa por uma solução duradoura para a crise.

A urgência da situação aumentou. Os depósitos bancários "overnight" no sistema bancário da Grécia caíram 35% comparado ao pico. É algo similar à saída de 42% dos depósitos de base na Argentina antes da quebra do "currency board" (que manteve por mais de dez anos o peso atrelado ao dólar na paridade de um para um) ou ao declínio de 30% nos depósitos na Rússia em 1998, segundo o Royal Bank of Canadá (RBC).

Depois de minimizar a saída da Grécia, nos mercados cresce a constatação de que o custo desse evento excede amplamente os benefícios em centenas de bilhões de euros. Daí a expectativa maior de ações em Bruxelas.

Na quarta-feira, no encontro informal dos líderes europeus, o apoio à Grécia no euro deve ser reiterado. E para sinalizar que há crescimento no horizonte, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, vai propor mais fundos para o Banco Europeu de Investimentos e o lançamento dos chamados "project bonds", ou emissão conjunta de títulos para levantar capital destinado a investimentos na periferia europeia.

O "Financial Times" diz que o crescente número de alertas de autoridades sobre uma possível saída da Grécia do euro não é acidental. Faz parte de uma estratégia consciente discutida numa série de encontros de alto nível, na semana passada, para mudar os termos do debate político em Atenas – das rígidas condicionalidades do pacote de socorro de € 174 bilhões para uma permanência do país na união monetária.

Se a eleição de 17 de junho de novo não resultar num governo estável, a possibilidade de a Grécia deixar a zona torna-se ainda mais real.

Mas, mesmo se uma corrida aos bancos puder ser evitada e um novo governo favorável aos programas de socorro for formado após a eleição em Atenas, os planos de austeridade impostos pela Europa precisarão ser revisados se os líderes são sérios sobre a permanência grega.

A UE vai ter de fazer concessões ao futuro governo em Atenas. Para vários analistas, também a dívida oficial grega precisa ser reduzida. Só assim o país implementará reformas estruturais e fiscais exigidas sem continuar à beira do colapso.

Para o professor Charles Wyplotz, do Instituto Internacional de Altos Estudos de Genebra, os líderes vão ser empurrados nas próximas semanas a convergir para um rigor fiscal menos violento e um equilíbrio fiscal mais espaçado na zona do euro. O BCE poderá passar a comprar ou garantir dívida soberana diretamente para evitar a catástrofe. E, depois da Grécia, deve haver mais tolerância sobre reestruturação de dívida de outros países.

Também está clara a insuficiência do fundo de socorro de € 500 bilhões para caso de emergência. Essa barreira de proteção precisa ser reforçada com mais dinheiro do FMI. O Fundo buscava US$ 600 bilhões, mas até agora só conseguiu US$ 362 bilhões. E 70% desse dinheiro vem dos próprios europeus, para voltar à Europa. É por enquanto uma operação inter-europeia usando o FMI para driblar a regra do BCE de não emprestar diretamente aos governos nacionais, além de transferir o risco de crédito para o balanço do Fundo.

O Brasil condiciona sua participação no pacote de empréstimo ao FMI, que beneficiará sobretudo os europeus, à nova distribuição do poder decisório na reforma das cotas em 2014. Até a cúpula do G-20 em junho, ainda haverá muita negociação.

Em meio as enormes incertezas atuais, Paulo Nogueira Batista Júnior diz esperar que alguém, em algum lugar, esteja realmente preparando um plano abrangente de emergência para uma eventual saída da Grécia do euro – se inevitável – ocorrer de maneira bem estruturada, com ajuda do resto da zona, para se tornar menos traumática.

Tudo indica que 2012 será mesmo um ano decisivo para a união monetária.

Assis Moreira é correspondente em Genebra. O titular da coluna, Sergio Leo, está em férias.

E-mail – assis.moreira@valor.com.br

Fonte: Valor | Por Assis Moreira

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