Unica cobra as promessas que Dilma fez aos usineiros

LINDOMAR CRUZ/ABR /JC

 Rodrigues afirma que é necessário avançar as conversas  no plano político

Rodrigues afirma que é necessário avançar as conversas no plano político

Clima entre o governo e os produtores de cana–de-açúcar está tenso e usineiros acusam Dilma de haver abandonado o biocombustível. Eleito para coordenar a volta do diálogo, Rodrigues não é bem visto como negociador no Planalto.

O governo federal deveria sinalizar logo com medidas para o setor de açúcar e etanol, cumprindo as promessas feitas pela presidente Dilma Rousseff para o PIS-Cofins, recuperação de créditos no valor de R$ 1 bilhão, retorno da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico), alteração da mistura de 25% para 27,5% de etanol anidro na gasolina e liberação de recursos para a armazenagem de açúcar. A afirmação é de Elizabeth Farina, presidente da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), alegando que essas iniciativas aliviariam o caixa das empresas.

A presidente da Unica acrescentou ainda que o setor quer também a inclusão na lista dos beneficiados com a desoneração da folha de pagamento, que teve a permanência anunciada na semana passada pela presidente Dilma para os 56 setores que são beneficiados pela medida. Para André Rocha, presidente do Fórum Nacional Sucroenergético, que esteve em um jantar com Dilma e outros produtores rurais no dia 23 (a Unica não foi convidada), ainda é cedo para definições eleitorais, mas “não há porta fechada para ninguém. Queremos que se comprometam com o etanol como política de Estado”, afirmou. Rocha disse ainda que as conversas com Dilma devem prosseguir nas próximas semanas.

A verdade é que o clima entre os produtores de cana-de-açúcar e o Palácio do Planalto há muito tempo não era tão tenso. Depois de uma lua de mel durante os mandatos de Lula na presidência, o setor canavieiro vive, no governo Dilma Rousseff, uma crise que está levando a indústria do açúcar e do etanol a um buraco que só afunda. Usineiros acusam o governo federal de abandonar o etanol e cresce na lavoura de cana a simpatia pela tese de necessidade da alternância de poder em Brasília.

“Não tem havido um diálogo institucional entre o setor e a chefe de governo”, resumiu, na semana passada, o presidente do Conselho Deliberativo da Unica, Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, chamado pela indústria para assumir o cargo e tentar conter a carreira ladeira abaixo dos números do setor. Ele também recebeu a tarefa de reconstruir as pontes avariadas na crise com o Planalto.

Rodrigues acaba de tomar posse no Conselho da entidade em clima de terra arrasada. A quebradeira de usinas, que chegou a operar com 415 unidades no País, virou rotina – em cinco anos, pelo menos 60 usinas fecharam, e outras 66 têm problemas graves de recuperação judicial. O endividamento líquido médio do setor come 104% do faturamento anual de US$ 43 bilhões e 60 mil empregos diretos foram cortados em dois anos.

Além disso, o etanol, o queridinho estratégico brasileiro, fundamental na recuperação dessa engrenagem, está saindo da fábrica ao preço de R$ 1,20 o litro, enquanto o custo de produção já alcança R$ 1,25. E mais: na bomba, o consumidor quase não vê diferença entre álcool e gasolina, o que detona o discurso do flex e o caixa de usinas, destilarias e canavieiros.

Nesse ambiente adverso, a campanha eleitoral amplia a pressão por todo lado. E o empresariado canavieiro não ouve do Planalto as respostas que acha necessárias para o rumo da saída, que passariam, de imediato, por uma mexida dos preços de combustíveis – etanol e gasolina, esta última a grande vilã da história, principalmente depois da desoneração dos R$ 0,28 da Cide.

Resultado: o cordão de usineiros que defende a ideia de um eventual desembarque da nave Dilma-Lula para embarque no voo eleitoral do tucano Aécio Neves (PSDB) ou até do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB) só cresce – o que pode atrapalhar o caminho para soluções dos problemas mais urgentes. “É natural que isso ocorra. Essa tensão era inevitável”, pondera Rodrigues, admitindo que o clima da campanha eleitoral pode criar dificuldades para o que ele chamou de “início de uma conversa política com o governo federal” por conta das urgências nas usinas.

Para Rodrigues, que também defende o retorno da cobrança da Cide na gasolina, “as conversas nos níveis técnicos estão ocorrendo bem, mas há que avançar no plano político com transparência e sem preconceitos”. Representando cerca de 35% da produção que está na mão de fornecedores de cana-de-açúcar independentes, Rodrigues não é o negociador dos sonhos de Dilma. Mas tem no currículo a passagem pelo ministério nos áureos tempos da cana com Lula e o aval dos industriais do setor para buscar consensos dentro e fora de suas fileiras.

Com crise no setor sucroenergético, sorgo é problema para uns e solução para outros

O sorgo sacarino, planta que no início da década era festejada como complemento à cana-de-açúcar na produção de etanol e biomassa, perdeu espaço como fonte energética com a crise do setor sucroalcooleiro. A multinacional Monsanto, por meio do seu braço de bioenergia no País, a CanaVialis, chegou a ter 20 mil hectares de suas variedades de sorgo sacarino cultivadas, mas confirmou ter suspenso o projeto no País por conta da crise e decidiu focar apenas em cana-de-açúcar, com novas variedades previstas. Por outro, lado, a Ceres Sementes do Brasil considera a crise como oportunidade de avanço no País.

Após os primeiros ensaios com o sorgo sacarino para a produção de etanol, a empresa americana com sede em Thousand Oaks (Califórnia) e unidade em Campinas (SP) espera iniciar, na próxima safra, o plantio de áreas comerciais de duas variedades híbridas próprias e ainda uma da Embrapa. “Após mais de 80 ensaios para avaliação, teremos uma ação comercial em no máximo três regiões do Centro-Sul. Ainda não temos grandes ambições em termos de volume, pois buscamos a excelência”, afirmou André Franco, gerente-geral da Ceres no Brasil.

O executivo avalia que “se o setor sucroenergético estivesse bem, as oportunidades seriam melhores, mas, com a crise, as empresas precisam buscar alternativas”. Ele admite que, apesar da crise no setor, a frustração com os baixos volumes de etanol produzidos pelas variedades até então existentes de sorgo sacarino trouxeram impactos negativos para a cultura. “Houve uma expectativa gerada pelas empresas que não foi atendida pela baixa produção de etanol por hectare.”

Cultivado nas áreas de reforma de canaviais e com um ciclo médio de 120 dias, o sorgo sacarino é colhido entre o período da entressafra e início da safra de cana-de-açúcar. Por ter um porte semelhante ao da cana, passa pelos mesmos processos de colheita mecanizada e processamento nas usinas e destilarias.

Enquanto o sorgo sacarino para etanol sofre com a crise do combustível, o sorgo de alta biomassa se beneficia de outra crise. Utilizado para a produção de energia elétrica nas usinas, o sorgo de alta biomassa avança em escala comercial na cogeração em termelétricas que já processavam o bagaço de cana. “Com o preço da energia acima dos R$ 200,00 mW/h (para energia contratada) e acima de R$ 600,00 no mercado spot, o sorgo foi uma alternativa para as usinas”, afirmou Franco.

A colheita do sorgo de alta biomassa deve estar concluída até o final deste mês e, mesmo sem informar a extensão de sua área comercial, o gerente-geral da Ceres diz que espera resultados “bastante positivos”, principalmente pela resposta à forte estiagem que impactou também a cultura em 2014. “O sorgo já é conhecido por ser rústico e resistente, e a resposta à seca foi boa”, concluiu Franco.

Medidas para reversão do quadro, segundo os produtores

Entre os elementos fundamentais da política, o setor considera quatro itens fundamentais:

1 – Diretriz de longo prazo para a matriz brasileira de combustíveis.

É imprescindível uma definição sobre o papel do etanol na matriz de combustíveis do País. Mais do que divulgar previsões de demanda e oferta das diferentes fontes de energia, há que se adotar ações que tornem possível essas previsões.

2 – Diferenciação tributária entre o combustível renovável e seu substituto fóssil.

Está claro que os benefícios sociais superam os benefícios privados na produção de etanol. Trata-se de um caso clássico de geração de externalidades positivas que geram investimentos privados menores do que o socialmente desejável.

Essa falha de mercado pode ser corrigida com a tributação do combustível fóssil e poluente, melhorando a competitividade do combustível limpo e renovável.

O restabelecimento da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) ou a instituição de outro tributo federal de natureza “ambiental” em níveis adequados para valorizar a matriz de combustível de baixo carbono podem funcionar como instrumento de correção.

3 – Estímulos aos ganhos de eficiência técnica dos veículos.

Garantir, no contexto do Inovar-Auto, mecanismo de estímulo à busca de maior eficiência dos motores de veículos flex no uso do etanol hidratado como combustível contribuiria decisivamente para a competitividade do biocombustível em relação à gasolina. O mesmo se aplica para o desenvolvimento dos motores híbridos flex ou movidos a etanol.

4 – Valoração das vantagens da bioeletricidade.

Adequação dos leilões de energia elétrica, com a valorização dos atributos ambientais, elétricos e econômicos advindos do uso da bioeletricidade para viabilizar a geração a partir da biomassa da cana-de-açúcar, especialmente nas usinas tradicionais.

Fonte: Jornal do Comércio |

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