Uma nova identidade sucroalcooleira em gestação

Cláudio Belli/Valor / Cláudio Belli/Valor
"Para alguns associados, a cana representa 5% do faturamento. Para outros, 100%", diz Marcos Jank sobre o setor

Até pouco tempo atrás formada majoritariamente por usinas sucroalcooleiras, a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) vem passando nos últimos anos por uma mudança estrutural que busca conciliar diferentes interesses de empresas nacionais e estrangeiras que, em muitos casos, não se limitam mais apenas à produção de açúcar e etanol, mas têm negócios importantes em áreas como distribuição de combustíveis, construção civil e trade de commodities.

Mais uma etapa dessas mudanças foi oficializada ontem nas atas da entidade, a mais importante a representar o setor no país. Deixam o conselho deliberativo da Unica o ex-presidente da entidade, o economista Eduardo Carvalho, e o empresário Maurílio Biagi Filho, uma das figuras mais emblemáticas do ramo e que chegou a ser um dos maiores usineiros do país.

Também em reunião realizada ontem, os associados da Unica confirmaram oficialmente a já pública separação do cargo de presidente do conselho deliberativo da função de presidente-executivo. Para liderar o conselho, foi eleito o ex-ministro da Casa Civil, Pedro Parente, atual presidente da americana Bunge no Brasil. Para ficar à frente do cargo executivo, Marcos Jank foi reeleito. Ambos têm a cumprir um mandato de dois anos, assim como todos os membros dos conselhos deliberativo e fiscal, também eleitos ontem.

Com reconhecido trânsito político, Parente será um porta-voz do setor nos altos escalões do governo. Essa função esteve até então estancada pela turbulenta agenda do desabastecimento de etanol, que marcou 2011 e provocou desgaste com a gestão da presidente Dilma Rousseff. Parente terá a incumbência de reabrir essas portas.

  

Mas internamente, dentro do conselho da Unica, o trabalho de Parente também não será trivial. Isso porque, nos discursos oficiais, integrantes da entidade insistem em afirmar que o setor ainda tem muito em comum. Mas, nos bastidores, o que vem prevalecendo são as inúmeras divergências.

Elas passam, por exemplo, pela restrição da compra de terras por estrangeiros. Uma ala do conselho discorda que a questão tenha que ser bandeira da Unica. Outro grupo, sobretudo o formado pelas estrangeiras, defende que a entidade tome a frente desse pleito, dizem fontes. Há cinco anos restrita à 5%, a participação do capital externo na moagem de cana do Centro-Sul é atualmente próximo de 25%.

"A importância do negócio canavieiro para cada um dos associados é diferente. Para alguns, a cana é 5% do faturamento. Para outros, 100%", exemplifica o presidente-executivo da Unica, Marcos Jank.

Sem mencionar quais são as questões discordantes, o executivo reconhece que há dentro do conselho uma percepção diferente sobre o que é e o que não é prioritário. "E se tornou difícil harmonizar essas posições", completa Jank.

Ele conta que, sobretudo no último ano, em que a produção de cana foi baixa, as diferenças pesaram mais, tornando o processo decisório mais complicado.

Segundo fontes ouvidas pelo Valor, há hoje dentro da Unica até quem discorde de que deve haver estímulos para uma nova onda de crescimento. "Interessa estimular um ciclo de investimentos, trazendo concorrentes de fora do país?", questionam as mesmas fontes.

Atualmente com 48 anos, Marcos Jank assumiu a presidência da Unica em 2007 em um momento em que o setor vivia um boom de investimentos. Profissional de elevado gabarito em economia internacional, Jank veio para atender ao anseio do setor que via na abertura de mercado externo ao etanol brasileiro uma demanda crucial.

Já no mesmo ano, a grande produção brasileira do biocombustível inundou o mercado doméstico, diante da manutenção das barreiras protecionistas, sobretudo, nos Estados Unidos. Com a baixa rentabilidade do etanol a partir de 2007, condição agravada pelo ápice da crise mundial, em 2008, a agenda alcooleira voltou suas atenções ao mercado interno, apesar de ter continuado suas ações no exterior e obtido avanços na redução de barreiras comerciais.

Agora, com a chegada de Parente, a ideia é que o conselho da Unica possa costurar posições mais consensuais. Há, no entanto, quem diga que, apesar da habilidade política de Parente, ele não conseguirá evitar o inevitável: o setor de distribuição de combustíveis já está fincado dentro da maior entidade sucroalcooleira do país.

Fonte: Valor | Por Fabiana Batista | De São Paulo

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