Um ‘problema’ que vira alimento

Ao menos 20% das plantas consideradas daninhas às lavouras brasileiras podem ser destinadas à alimentação. A estimativa é de Nuno Madeira, pesquisador da Embrapa Hortaliças e responsável pelo projeto que busca difundir as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) entre pequenos produtores do Centro-Oeste.

"Entre as plantas espontâneas e infestantes várias são comestíveis. Algumas são muito usadas em outros países, mas por hábitos e escolhas comerciais a gente tem descartado", diz o pesquisador. Entre outras, algumas espécies de amaranto (usada no preparo do caruru), beldroega, vinagreira e até mesmo a buva, pesadelo dos produtores da região Sul do país.

"As nossas plantas, brasileiras, a gente não usa, mas fica quebrando a cabeça pra produzir alface no Amazonas. É impressionante", critica Madeira. O pesquisador lembra que as PANCs são encaradas como daninhas e infestantes pelos produtores justamente por serem espontâneas, não sendo necessários grandes esforços para cultivá-las. É o caso da buva, também comestível, e algumas espécies de amaranto.

"A proposta de consumir espécies exóticas em detrimento das espontâneas faz com que haja uma carga de agrotóxicos muito maior na agricultura brasileira, já que o clima não é exatamente o ideal para culturas como alface e couve", afirma Madeira, cujas esperanças de uma mudança nos hábitos alimentares nacionais são remotas. "Isso não vai mudar. O mercado é que dita isso. Imagina a revolução agrícola que não seria passar a consumir coisas mais espontâneas. Claro que toda a cadeia produtiva de insumos cairia matando", reconhece ele.

No assentamento Canaã, em Braslândia (DF), 15 das 66 famílias assentadas começaram este ano a apostar no cultivo comercial de PANC’s, segundo o coordenador da ação, o também assentado Flavio do Carmo. "Essas hortaliças europeias estão difíceis de serem produzidas porque precisam de muita água e aqui estamos com uma crise hídrica severa".

A estratégia é atender um público específico, cujos olhos já começam a se voltar para alimentos até então considerados exóticos. Entre a lista de potenciais clientes estão restaurantes e chefs de cozinha. "Esse mercado se abriu com o surgimento de um consumidor interessado em saber de onde vem o alimento. É um público novo", diz.

Numa feira de PANCs no Distrito Federal, Carmo conta que é possível vender um feixe de beldroega por até R$ 3, mesmo valor pago por folhosas como alface, rúcula e agrião. "São plantas boas porque não precisam de defensivos, são muito rústicas. No caso da beldroega, ela é espontânea e, depois que se torna espontânea, não precisa ficar adubando", explica o produtor.

O plano do assentamento, agora, é ampliar a produção, inicialmente com meio hectare, e convencer as demais famílias a apostarem no cultivo de PANC’s. Se tudo der certo, Carmo espera até mesmo processar alguns cultivos, com o cará, araruta com mandioca e a própria ora-pro-nóbis.

Por Cleyton Vilarino | De São Paulo

Fonte : Valor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *