Um milhão de árvores para São Bartolomeu

Com 55 km de extensão, o rio São Bartolomeu é uma das principais fontes de abastecimento para a população do Distrito Federal e cultivos agrícolas do entorno. Por décadas alvo de impactos e degradação, o manancial tornou-se cenário de um projeto de reflorestamento e geração de renda que mobiliza produtores rurais ribeirinhos para a recuperação da qualidade da água. "A prática de desmatar e ocupar a todo custo a beira do rio cede lugar ao plantio de árvores nativas visando a produção agroflorestal", diz o engenheiro florestal Irving Silveira, da Fundação Pró-Natureza.

Com recursos da Fundação Banco do Brasil, o plano é plantar 1 milhão de mudas nativas do Cerrado até 2013, totalizando 500 hectares, priorizando áreas já degradadas. No total, 90 mil árvores foram plantadas até o momento. Três viveiros com capacidade de produzir 75 mil mudas por ano serão instalados ao longo do rio, para abastecer o projeto. "Além disso, cada uma das 13 comunidades terá um viveiro próprio, com participação em 25% das vendas de mudas para terceiros", informa Silveira. Além de recuperar o ambiente, com efeito na melhoria da água, os produtores de hortaliças e outros alimentos têm no reflorestamento uma nova alternativa econômica.

Próximo às áreas de plantio está o marco da Missão Cruls, expedição científica que delimitou o quadrilátero onde mais tarde seria construída Brasília. Além do aumento da demanda hídrica e do lançamento de esgoto e lixo, atividades econômicas – como a dragagem para a retirada de areia do leito – causaram impactos no rio. "O cultivo de hortaliças despelou as margens, resultando em assoreamento e na qualidade de água", afirma Ingrid Silveira, uma das coordenadoras do projeto.

"A maioria dos produtores vinha usando o rio para irrigar as lavouras sem nunca pensar no futuro, mas a poluição começou a preocupar", conta José Nilton Nascimento, dono de uma propriedade de 20 hectares que aguarda as mudas para substituir as hortas por cultivo mandioca, batata e laranja em meio a árvores nativas, dentro do sistema agroflorestal. Ele argumenta que as hortaliças ocupam área que deveria ser conservada e exigem uso intensivo de agrotóxicos, que acabam indo para o solo e para a água.

Nascimento faz curso técnico para aprender novas formas de plantio, com bolsa de estudos de R$ 700 mensais. "Recebo hoje por mês o que ganhava semanalmente com a venda de legumes e verduras", revela Nascimento, na esperança de resultados futuros que compensem a atual redução de renda. Uma possibilidade é a implantação do pagamento por serviços ambientais, modelo no qual os produtores são remunerados por conservar floresta, água ou outros recursos de interesse para a sociedade como um todo.

"A experiência no rio São Bartolomeu será replicada em outras regiões", revela Jeferson de Oliveira, gerente de articulação da Fundação Banco do Brasil, que investiu R$ 14 milhões na região. "Até o meio do ano concluiremos o diagnóstico em 14 outras bacias hidrográficas." Para o programa Água Brasil, parceria do banco com o WWF, estão previstos R$ 65 milhões, abrangendo cinco cidades que se propõem a desenvolver coleta seletiva e reciclagem. (SA)

Fonte: Valor | Por De São Paulo

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