Um dia de aprendizado na floresta, onde o manejo sustentável de madeira nativa derruba pré-conceitos

Com passos lentos, olhar firme e uma calma surpreendente, a jaguatirica cruza a estrada de chão e some na floresta fechada. É fim de tarde e a presença do felino à nossa frente, fecha com chave de ouro um dia de muito aprendizado na fazenda Sinopema, em Tabaporã, cerca de 680 quilômetros ao norte da capital Cuiabá. Dona de impressionantes 52 mil hectares de florestas nativas, a propriedade se tornou referência no manejo sustentável de florestas nativas em Mato Grosso e abriu as portas para mostrar na prática como toca a atividade, aliando produção e respeito ao meio ambiente.

Batizada como “Dia na Floresta”, a iniciativa do Cipem (Centro das Indústrias Produtoras e Exportadoras de Madeira em Mato Grosso) e do Fórum Nacional das Atividades de Base Florestal (FNBF) aposta na transparência como caminho para combater o desconhecimento acerca da realidade do setor de base florestal, muitas vezes associada – equivocadamente – com a extração ilegal de madeira e suas consequências danosas ao meio ambiente. Essa associação indevida distorce a imagem do setor, esconde o trabalho de excelência realizado por empresas como a Fazenda Sinopema, e, de certa forma, diminui a importância da atividade que é responsável pela quarta maior economia do estado, gera mais de 90 mil empregos diretos e indiretos, e movimenta cifras expressivas a cada ano. Só no ano passado foram mais de R$ 2 bilhões.

Entre palestras e visitas à áreas de manejo, o grupo formado por lideranças ambientais, parlamentares, jornalistas, engenheiros florestais, pesquisadores, estudantes e representantes de órgãos que atuam na fiscalização e combate à crimes ambientais (como o Ibama, por exemplo), enxergou como é possível “produzir” madeiras nativas sem colocar em risco o meio ambiente. No manejo sustentável, o “abate” de uma árvore só é autorizado após o inventário florestal e uma série de exigências, que envolvem – por exemplo – a idade da árvore, a existência de outros “indivíduos” da mesma espécie no local, o posicionamento da mesma na floresta (caso a sua queda ameace árvores que não possam ser derrubadas, o corte é negado), e mais uma infinidade de critérios técnicos. Além disso, a área manejada em um ano só pode voltar a ser manejada novamente 25 anos depois, o que garante que a regeneração natural possa ocorrer.

Com esclarecimentos, transparência e muita comunicação, as distorções sobre o setor de base florestal gradativamente tendem a ser minimizadas segundo Rafael Mason, presidente do Cipem. “O setor de base florestal é o que mais depende da floresta de pé”, afirma, reforçando que “a forma empregada no manejo garante a sustentabilidade ‘infinita’ da atividade”, pontua. A iniciativa também é vista de maneira positiva pelo superintendente do Ibama em Mato Grosso, Gibson de Almeida. Na avaliação dele, ações como esta “servem para mostrar para a sociedade que é possível realizar a exploração dos recursos naturais de forma sustentável”.

Atualmente, Mato Grosso possui 3,7 milhões de hectares de florestas nativas privadas conservadas por meio de manejo florestal sustentável, de acordo com a Secretaria de Meio Ambiente do Estado. A expectativa é elevar esta área para 6 milhões de hectares até 2030. Titular da pasta, Mauren Lazzaretti diz que o caminho para isso passa justamente pelo fortalecimento do manejo florestal sustentável e do aumento da eficiência dos órgãos ambientais. “Estamos trabalhando para promover a análise dos processos de licenciamento ambiental de manejos florestais sustentáveis no prazo exigido por lei – ampliando a confiança de quem investe neste ramo -, além disso é preciso fortalecer a cadeia produtiva e os sistemas de controle desta produção para mostrar para o mundo que adquire produtos florestais de Mato Grosso, que eles são produzidos dentro da legalidade, com confiança e controle do órgão estatal responsável por esta tarefa”, comenta.

Quando se fala em mercado mundial de madeiras nativas, o Brasil ainda tem participação tímida. Cerca de um por cento apenas, segundo o Cipem. No entanto, ao trilhar o caminho da transparência e da desmistificação o futuro se mostra bastante promissor. E uma prova disso está na parceria firmada recentemente com a Iniciativa para o Desenvolvimento Sustentável (IDH), uma fundação internacional privada que é mantida com recursos de governos da Europa e atua no apoio à produção sustentável de commodities. Gerente de investimentos da IDH no Brasil, Marcela Paranhos também participou do “Dia na Floresta” e destacou que a madeira brasileira pode avançar muito no mercado externo. “Esta parceria com o Cipem é exatamente para ajudar a comunicar isso para os mercados externo e interno, diferenciando o produtor que faz tudo correto, que tem modo de produção responsável e sustentável, para que essa madeira possa atingir estes mercados”, conclui.

Publicado por: luizpatroni

Fonte : Canal Rural