UE deverá embargar 15 unidades da BRF

O governo brasileiro já dá como certo um embargo definitivo da União Europeia a ao menos 15 plantas de carne de frango da BRF a partir desta semana. Unidades de outros frigoríficos de frango e de cooperativas da região Sul também devem ser impedidas de vender ao bloco.

A expectativa do Brasil é que as 12 plantas da BRF que já tiveram as exportações à UE suspensas preventivamente pelo Ministério da Agricultura sejam embargadas pelo bloco como efeito direto da Operação Trapaça. As investigações da Polícia Federal, que vieram à tona em março, apontaram um esquema de fraudes envolvendo a empresa e laboratórios na análise de salmonela em carne de frango para exportação.

Além das unidades de Rio Verde (GO), Mineiros (GO) e Carambeí (PR) – diretamente afetadas pela Operação Trapaça -, também deverão ser embargadas as plantas da BRF situadas em Concórdia (SC), Dourados (MS), Serafina Correa (RS), Chapecó (SC), Várzea Grande (MT), Marau (RS), Francisco Beltrão (PR), Capinzal (SC), Nova Mutum (MT). A localização das outras três fábricas ainda não é conhecida.

A proposta de embargo definitivo da UE a essas plantas será votada amanhã em reunião dos países do bloco. Uma comitiva liderada pelo ministro da Agricultura, Blairo Maggi, voltou de Bruxelas semana passada pessimista em relação à possibilidade de reverter a situação. Procurada, a BRF não se pronunciou.

Hoje, Blairo dará entrevista coletiva para detalhar a estratégia do Brasil em relação ao iminente embargo europeu. O plano inclui a abertura um painel na Organização Mundial do Comércio (OMC) para questionar exigências sanitárias rigorosas da UE para o controle da salmonela, mas consideradas "distorcivas" por Brasília do ponto de vista comercial. A abertura do painel já está sendo articulada por Blairo e os ministros Aloysio Nunes (Relações Exteriores) e Marcos Jorge (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior).

O Brasil planeja questionar por que a UE passou a exigir testes para 2,6 mil tipos de salmonela nas cargas de carne de frango salgada (fresca com 2% de sal), e testes para apenas dois tipos da bactéria na carne in natura (fresca com adição inferior de sal). Ambos os produtos têm cotas de importação livres de tarifas. Contudo, se por um lado a cota do frango in natura é pequena (14 mil toneladas) e as vendas extracotas estão sujeitas a tarifas mais altas, a cota de frango salgado é maior (170 mil toneladas) e tem tarifa extracota mais baixa, o que estimula as exportações pelas empresas brasileiras.

"A ideia não é defender a BRF. A entrada na OMC seria contra essa distorção tarifária que existe em função de uma medida sanitária inadequada", disse ao Valor o secretário de Defesa Agropecuária do Ministério, Luís Eduardo Rangel.

O Ministério da Agricultura admite, contudo, que o país dificilmente sairá vitorioso em uma eventual disputa com a UE na OMC, sobretudo depois dos casos de fraude identificados pela PF. O próprio Blairo passou a defender junto às empresas do segmento que "paguem o preço" de vender mais carne in natura com tarifa mais alta, mas com mais chances de passarem nos testes de salmonela, e não fiquem permanentemente sujeitas a exigências sanitárias duras. Outra medida avaliada pela Pasta é retaliar importações de produtos europeus como queijos, vinhos, azeite e bacalhau.

Pedro de Camargo Neto, vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), está entre os que acreditam que a posição do Brasil é frágil para comprar briga com a UE na OMC. "Perdemos credibilidade. Não significa que o setor de carnes seja ruim. Muito pelo contrário. É um setor moderno, com quadro profissional competente e instalações entre as mais modernas do mundo. Mas houve as operações Carne Fraca e Trapaça, que não tiveram resposta adequada. Protecionismo sempre existiu e continuará a existir. Porém, é precisa enfrentá-lo com credibilidade ou o lado que quer nos ajudar no exterior fica fragilizado. É o que está ocorrendo", disse. (Colaborou Fernando Lopes)

Por Cristiano Zaia | De Brasília

Fonte : Valor