Trump cogita elevar a mistura de etanol na gasolina nos EUA

O horizonte turbulento que a indústria americana de etanol vislumbrava para este ano poderá mudar da água para o vinho. Em breve declaração à imprensa ontem, o presidente americano Donald Trump disse que "provavelmente" autorizará a venda de gasolina misturada com 15% de etanol durante o ano inteiro nos EUA.

Se confirmada, a medida abrirá à indústria de etanol daquele país um mercado consumidor do tamanho do brasileiro e elevará a demanda dessa indústria por milho (matéria-prima para a produção do etanol no país), alterando a competitividade dos EUA no comércio global do biocombustível – ainda que não no curto prazo. Essa indicação vem na contramão dos sinais dados nos últimos meses pelas autoridades americanas, que vinham reduzindo as perspectivas de apoio ao Programa de Combustíveis Renováveis (RFS).

Atualmente, os postos americanos vendem gasolina com até 10% de etanol misturado (E10). Normalmente não o fazem, mas podem até vender com uma mistura de 15% – menos no verão, por causa da maior volatilidade do combustível sob altas temperaturas – o que, para defensores da indústria do petróleo, prejudica os motores.

"Nós vamos trabalhar em algo durante esse período de transição, que não é fácil, muito complicado", afirmou Trump. A curta declaração, porém, não ofereceu mais detalhes sobre os próximos passos do governo. Ainda não está claro se essa autorização teria que passar pelo crivo da Agência de Proteção Ambiental (EPA), que neste governo tem provocado a ira do setor de biocombustíveis do país.

A permissão para a venda do E15 o ano todo abriria para as usinas americanas um mercado potencial de 26 bilhões de litros, segundo Plínio Nastari, presidente da consultoria Datagro. Esse volume adicional equivale a todo o etanol (hidratado e anidro) vendido pelas usinas da região Centro-Sul do Brasil na safra passada (2017/18).

Para Nastari, uma mudança dessa magnitude mudaria "totalmente" o mercado mundial de etanol, já que os EUA são, já há anos, os maiores exportadores. "Isso tira boa parte da pressão que o excedente exportável americano coloca no mercado mundial, inclusive para destinos como o Brasil."

Desde 2013, os EUA vêm aumentando suas exportações de etanol e tomaram o lugar do Brasil na liderança desse comércio. No ano passado, 67% do etanol exportado no mundo era americano, segundo a Datagro. Quatro anos antes, essa participação era de 63%. O espaço foi conquistado às custas da queda das exportações brasileiras, que em 2017 representaram apenas 19% dos embarques globais.

O excedente de produção nos EUA, que no ano passado foi de 5 bilhões de litros, é garantido justamente pelas limitações ao aumento da mistura na gasolina, observa João Paulo Botelho, analista da consultoria INTL FCStone.

Mas foi por causa do preço do milho que os EUA abocanharam mercados pelo mundo. Nos últimos anos, grandes safras nas Américas do Norte e do Sul derrubaram o preço do grão a tal nível que conferiram competitividade à indústria americana de etanol, já que o milho responde por 90% do custo de produção, lembra Nastari.

Antes da declaração de Trump, Geoff Cooper, vice-presidente executivo da Associação de Combustíveis Renováveis (RFA), disse ao Valor que o setor continuaria aumentando suas exportações neste ano. A associação previa embarques entre 5,3 milhões e 6,1 milhões de litros de etanol em 2017, ante 5 milhões no ano passado.

A avaliação era que, sem alteração na mistura, o etanol adicional iria para "algum mercado". "Certamente o mercado de exportação é importante para isso", disse.

Apesar da guerra comercial travada com a China, Cooper ressaltou que o etanol americano tem outros mercados para elevar as exportações: Canadá, México, Índia e Filipinas. Ele considerava que poderia haver um "pequeno aumento" dos embarques ao Brasil, dada a demanda esperada para este ano no país.

A autorização para o E15 nos EUA, porém, pode impactar os preços do milho e, consequentemente, a competitividade do etanol americano. Na safra atual, as destilarias dos EUA devem adquirir 141,6 milhões de toneladas, segundo o Departamento de Agricultura do país (USDA), ou 38% da safra americana. Se toda a gasolina vendida nos EUA passar a ter 15% de etanol, a indústria teria de comprar mais de 200 milhões de toneladas por ano.

Apesar do horizonte que se abre, a concretização de toda essa demanda não é garantida. Botelho, da FCStone, diz que levaria um tempo para que distribuidores, postos e consumidores se adaptassem ao novo limite. Nastari avalia que é "cedo" para traçar estimativas, mas acredita que "os EUA não vão sair do mercado global".

Neste ano, a indústria americana de etanol vem recebendo más notícias para seus negócios, como a alta de 10,8% dos preços futuros do milho na bolsa de Chicago desde o início do ano, ou o benefício conquistado por várias refinarias junto à EPA para não cumprir os mandatos de mistura previstos no RFS.

Se essa conjuntura se mantiver e não houver autorização para o E15, a saída mais provável para o setor é apostar no mercado externo e, no limite, reduzir a oferta interna, segundo Cooper, da RFA. "As margens ainda estão positivas para a maior parte da indústria, mas não muito. Se virmos mais aumento nos preços do milho ou queda do etanol, podemos ver alguma redução na produção".

    Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

    Fonte : Valor