Trigo reduz exportações gaúchas no 1º trimestre

Ano começa com diminuições também em segmentos industriais

Patrícia Comunello

Faltou trigo para dar mais substância às exportações gaúchas no primeiro trimestre do ano. A presença externa global da produção gaúcha em todos os setores fechou o período com recuo de 8%, somando US$ 3,2 bilhões, ante US$ 3,5 bilhões dos três primeiros meses de 2013. O que foi motivo ainda para rebaixar a posição gaúcha no cenário nacional. O Rio Grande do Sul ficou em sétimo lugar no período. No ano passado, a receita externa da produção total gaúcha terminou os três primeiros meses na quarta posição. Somente o grão foi responsável por um desfalque de US$ 287 milhões, depois de despencar 98% no confronto dos dois períodos.
Os dados foram divulgados ontem pela Fundação de Economia e Estatística (FEE). “Se tivesse ingressado a receita com trigo, que aumentou o volume nos últimos dois anos, não teria ocorrido a queda”, conclui o analista da FEE e um dos autores do estudo sobre as exportações, Guilherme Risco. A saída do grão da pauta externa é justificada pela cadeia tritícola pela oportunidade de comercialização a mercados como o paranaense, segundo produtor nacional (atrás do Rio Grande do Sul) e que teve quebra da safra em 2013. Em março, a venda externa gaúcha somou US$ 1,9 milhão, 97% abaixo do mesmo mês de 2013 (US$ 61,6 milhões). No trimestre, foram US$ 7 milhões, 98% a menos que o mesmo período do ano anterior, quando somou US$ 294 milhões.
O valor em reais que deixou de ser captado no exterior (compensado com a colocação interna), pelo câmbio de ontem (R$ 2,24), é de R$ 644 milhões. O Paraguai foi o maior destino, comprando 20 mil toneladas. “O trigo era a plataforma de petróleo que não tivemos no primeiro trimestre”, comparou o economista da fundação Adalberto Maia. O economista antecipa o que deve ser o dilema da balança externa do Estado este ano. Mesmo com expectativa de divisas que devem crescer com a exportação do complexo soja e recuperação de setores industriais até dezembro, Maia lembra que é bom se preparar para a queda no resultado de 2014. “Não teremos outro elemento como três plataformas. É preciso analisar o desempenho retirando estes novos componentes”, sugere o economista.   
Além do trigo, itens da indústria de transformação como veículos, fumo e carnes ajudaram a piorar a face gaúcha no Exterior na largada do ano, contribuindo com a queda de 1% na receita do setor, que tem o maior peso na área externa, com 88,7% do total faturado de janeiro a março, mesmo assim superior aos 82,4% do mesmo período de 2013. A indústria ganhou terreno em cima da perda de espaço dos grãos, que recuaram de 15,45 (2013) para 9,7% este ano. As quedas no ramo industrial com maior peso nos negócios externos foram puxadas por carnes (-20,7%), fumo (-22,1%) e veículos automotores, reboques e carrocerias (-20,8%).


Paraná absorve safra que iria para o Exterior

O trigo gaúcho não chegou ao Exterior porque fez um atalho no Paraná. O estado do Sul consumiu, entre outubro de 2013 e março deste ano, 640 mil toneladas, 20% das 3,178 milhões de toneladas colhidas na última safra nas lavouras do Estado, considerada recorde, segundo a Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado (Fecoagro-RS), com dados do Ministério da Agricultura. A produção gaúcha é a maior do País, que somou 5,3 milhões de toneladas para um consumo interno de quase 11 milhões de toneladas. O volume comprado pelos paranaenses gerou receita de R$ 475 milhões à cadeia do trigo local (produtores, cooperativas e cerealistas).
A “exportação” para o mercado doméstico, englobando todos as unidades da federação, consumiu 1,17 milhão de toneladas até março, ou R$ 868 milhões, completa a Fecoagro-RS. O presidente da entidade, Paulo Cezar Vieira Pires, aponta que a redução no fluxo internacional do grão se deve a uma oportunidade. Os preços estão mais vantajosos no mercado interno devido à quebra da safra paranaense, que chegou a 40%, com redução de mais de 900 mil toneladas. “A exportação não se viabilizou”, resumiu Pires, o que justificaria a presença quase insignificante do produto nas exportações nos três primeiros meses do ano e ainda mais fraca em março.
Até o começo do ano, o setor chegou a se preocupar diante de vendas paradas. O dirigente cita que a partir de fevereiro houve reação. Mas ainda há muito produto estocado. Somente nos silos e armazéns do sistema da Fecoagro estão 793 mil toneladas. Parte do estoque atende, segundo o setor, a pequenos moinhos, com menor acesso a importação. O temor agora é que se repita o ingresso de trigo do Exterior. Pires informa que há pressão de grandes moinhos do País para zerar a Tarifa Externa Comum (TEC) para trazer trigo de fora do Mercosul, o que pressionaria preços internos.

Fonte: Jornal do Comércio |

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