Transposição do São Francisco viabiliza estudo da Caatinga

Marcio Neves/Folhapress / Marcio Neves/Folhapress
Recuperação de área impactada pelas obras de transposição do São Francisco exigirá o plantio de 47 milhões de mudas

Além de transportar água para mudar a realidade social e econômica de regiões vulneráveis à seca, os dois grandes canais que rasgam 700 km do semiárido na transposição do rio São Francisco também podem contribuir para uma outra revolução: a do conhecimento científico sobre a Caatinga, um dos biomas brasileiros mais frágeis e ameaçados.

O centro das atenções está nos preparativos da ampla restauração florestal, obrigatória para o conserto dos danos ao longo de todo o percurso do recurso hídrico. O licenciamento da obra prevê a recuperação de uma faixa de 280 km2, o que implicará o plantio de aproximadamente 47 milhões de mudas de vegetação nativa, a um custo em torno de R$ 450 milhões.

A estimativa é de pesquisadores ligados ao empreendimento, cuja primeira etapa de testes com a captação de água está prevista para o fim do ano ou começo de 2014. O desafio de recompor a paisagem, projeto ambicioso e inovador para uma região carente de investimentos e mão de obra especializada, está a cargo de uma instituição acadêmica que se estruturou e cresceu em pleno sertão com a tarefa de dar suporte científico à transposição do Velho Chico.

Com laboratórios e prédios equiparados aos dos melhores centros de pesquisa do país, a Universidade Federal do Vale do São Francisco (Unifasf), em Petrolina (PE), atrai pesquisadores de várias regiões e simboliza as transformações econômicas e sociais registradas nos últimos anos naquele polo de desenvolvimento, baseado na fruticultura irrigada para exportação.

Abre-se agora uma janela de oportunidades em função da obra nos canais e da importância de se conhecer cientificamente a Caatinga para a ordenação do uso econômico mais sustentável e atraente para investimentos. A recuperação florestal de um hectare no bioma custa em torno de R$ 16 mil, bem mais caro que na Mata Atlântica. "É necessário investir em ciência e tecnologia para baratear o custo, ainda alto em uma das regiões com os piores índices de IDH do Brasil, onde temos outras prioridades", diz o botânico e ecólogo José Alves, diretor do Centro de Referência para a Recuperação de Áreas Degradadas (CRAD), instalado no campus da universidade.

O trabalho de campo, realizado durante quatro anos, para coleta da flora ao longo da obra de transposição resultou na instalação de um herbário com 20 mil amostras de plantas que já nasceu como um dos mais importantes do país e proporcionou a descoberta de espécies não descritas pela ciência.

A obra também gera qualificação profissional. No centro especializado em restauração, trabalham mais de 100 funcionários e pesquisadores. Eles identificaram as espécies vegetais das áreas desmatadas que vão ser restauradas, entenderam como conservar as sementes e operam um viveiro de mudas de grande porte. Experimentos são realizados em áreas-piloto para saber se as árvores em regeneração voltam ao tamanho original e em quanto tempo.

"Falta precificar as espécies do sertão e desenvolver o mercado", diz Alves, para quem a restauração dos impactos da obra é uma grande oportunidade de geração de emprego e renda para a população local. Mas ele adverte: "o processo deve ser acelerado, porque o aquecimento global e a desertificação já batem na porta da Caatinga". O bioma abrange ecossistemas frágeis e "se não formos inteligentes e ligeiros, a degradação pode tornar a restauração inviável."

"É necessário investimento contínuo, no mínimo por 30 anos", adverte o cientista. Para atender aos requisitos ambientais da transposição, o Ministério da Integração Nacional injetou recursos extras de quase R$ 60 milhões na Unifasf – instituída em 2004, a primeira que saiu do papel após vários anos sem que o governo federal tivesse criado uma universidade no país.

O valor adicional supera em muito o orçamento anual da instituição, que reivindicou a posse do patrimônio genético gerado pela obra como estratégia para ser equipada com laboratórios de referência. "Não havia sentido deixar esse tesouro ser pesquisado, monitorado e arquivado por instituições e empresas particulares de outras regiões", afirma Alves. Mais que mero repositor da flora, o projeto é difundir conhecimento e induzir novas tecnologias.

Em menos de dez anos de existência, a universidade abriu sedes em cidades sertanejas do entorno, como São Raimundo Nonato, no Piauí, onde se localiza a Serra da Capivara, maior concentração de sítios arqueológicos com arte rupestre do planeta. Os alunos de arqueologia participam das expedições com pesquisadores da Fundação Museu do Homem Americano, contratada para fazer o resgate arqueológico durante o trabalho das máquinas nos canais da transposição do São Francisco. Entre as descobertas, estão ossadas de grandes mamíferos pré-históricos indicando, entre outros pontos, que o atual semiárido já foi uma região rica em água e florestas com árvores de grande porte.

"Qualificamos profissionais locais para trabalhar com licenciamento ambiental e atividades que lidam com os temas peculiares do sertão", afirma o pesquisador Luiz Pereira, que trocou a Mata Atlântica do Paraná pela Caatinga e hoje dirige o Centro de Manejo de Fauna da Caatinga (Cemafauna), criado há quatro anos na universidade para o salvamento dos animais antes do desmatamento para a abertura dos canais.

O complexo de prédios com clínica veterinária, museu, alojamento para fauna, veículos e laboratórios chama atenção em meio à aridez da paisagem. Dos 10 mil animais até hoje resgatados, 8 mil retornaram à natureza. Parte deles precisou de cuidados nas instalações do centro, para onde também são levados bichos apreendidos pela fiscalização contra o tráfico de espécies silvestres.

Aves, mamíferos, répteis, anfíbios, insetos e peixes serão monitorados em campo por seis anos após a obra. Barreiras elétricas serão colocadas na captação da água para impedir a entrada de peixes nos canais. "A transposição já é uma realidade, resta agora planejar o que fazer com a água e refletir sobre os legados para região", ressalta Pereira. As pesquisas com a fauna resultarão em propostas para criação de parques e reservas capazes de funcionar como corredores ecológicos para o trânsito dos animais. O trabalho de levar água para o sertanejo, diz o professor, carrega junto a oportunidade de repensar e proteger a Caatinga.

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Fonte: Valor | Por Sérgio Adeodato | Para o Valor, de São Paulo

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