Transgênicos ganham espaço, mas enfrentam novos desafios

Cultivados legalmente há 20 anos no Brasil, os organismos geneticamente modificados (OGMs) conquistaram os agricultores e passaram a dominar as lavouras de soja, milho e algodão do país (ver infográfico). Nada indica que o cenário vai mudar nos próximos anos, mas não são triviais os obstáculos que a tecnologia vai enfrentar para que o ritmo de expansão do plantio de transgênicos seja mantido e ampliado para outros produtos e fronteiras.

"Os transgênicos continuarão a ser o motor da expansão agrícola global, sobretudo em países como EUA, Brasil, Argentina e Austrália, que estão muito à frente nesse mercado. Mas há desafios para isso, entre eles os processos de aprovação regulatória de alguns governos, o encarecimento das pesquisas em busca de sementes mais eficientes e as guerras comerciais", diz Anderson Galvão, CEO da consultoria Céleres.

Galvão acompanha a evolução do plantio de OGMs no Brasil e no mundo desde o fim da década de 1990. Na safra 1997/98, quando produtores gaúchos semearam, ainda ilegalmente, sementes de soja modificadas trazidas da Argentina – a soja "Maradona" -, percebeu que a tecnologia tinha chegado para ficar. Quando o plantio da soja Roundup Ready foi legalizado no mercado brasileiro, no ciclo 1998/99, e a semente rapidamente começou a se espalhar pelos demais Estados agrícolas e dominou Mato Grosso, viu que era um caminho sem volta.

"Por mais que a tecnologia tenha sido combatida por ambientalistas, entidades de defesa do consumidor e até por correntes políticas, caiu nas graças dos agricultores. Se eles estão plantando, pensei, alguma vantagem tem", lembra Galvão. Não que a pressão contrária tenha se esvaziado por completo. Mas assumiu outras roupagens. A crítica ideológica ao "domínio das multinacionais" deu lugar ao aumento da preocupação com a qualidade dos alimentos consumidos, e a rastreabilidade assumiu um protagonismo que antes praticamente não existia.

Para Galvão, essa rastreabilidade, no que tange aos transgênicos, não está se tornando apenas indispensável, mas também cada vez mais detalhada. E será mais complicada, tendo em vista que novos eventos deverão chegar ao mercado nos próximos anos. O especialista não acredita que a onda de fusões e aquisições entre gigantes do segmento de sementes atrapalhará o avanço dos OGMs, e alerta para a chegada no mercado de sementes transgênicas genéricas produzidas na China, num movimento parecido com o que aconteceu no segmento de defensivos agrícolas.

Anderson Galvão acredita, finalmente, que os aumentos de produtividade normalmente proporcionados pela adoção das sementes transgênicas e, com isso, os reflexos positivos sobre os preços dos alimentos – quanto maior a oferta, menor a pressão sobre os preços – ainda serão grandes trunfos dos organismos geneticamente modificados mesmo em um mundo onde a demanda por alimentos produzidos sem qualquer agroquímico ganha espaço, principalmente entre consumidores de maior poder aquisitivo.

Por Fernando Lopes | De São Paulo

Fonte : Valor

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