‘Tradings-usinas’ avançam em açúcar

Silvia Costanti/Valor / Silvia Costanti/Valor
"Ser grande na produção de açúcar nos traz um lastro consistente para a política de comercialização. Uma coisa anda junto com a outra", diz Kenneth Geld

Em busca de margens mais robustas, tradings que antes operavam puramente com negociação de açúcar no Brasil passaram nos últimos anos a ser importantes players também na produção. Seis das nove principais tradings que negociam a commodity no país também são – ou se tornaram – produtoras. Há dez anos, eram apenas duas ou três companhias. A estimativa é que nesta safra 2012/13 as "tradings-usinas" movimentem em torno de 18 milhões de toneladas de açúcar, o equivalente a 70% do que o Brasil deve embarcar na temporada.

De forma geral, o negócio de trading é caracterizado por grandes escalas e margens pequenas. O posicionamento dessas companhias também em produção surgiu, para algumas delas, como forma de captar valor a partir das commodities que já negociavam. "No Brasil, começamos nos anos 60 com a soja e, a partir do fim da década de 80, com suco de laranja. A premissa para entrar em ativos de açúcar foi a mesma: tornar a rentabilidade da companhia menos volátil", explica Kenneth Geld, chairman do conselho executivo da Louis Dreyfus Commodities (LDC) e da Biosev, braço sucroalcooleiro da comapanhia francesa.

A múlti europeia foi uma das primeiras entre suas pares a comprar usinas. A estreia foi em 2001, com a Cresciumal, de Leme (SP). Avançou em 2007 com as unidades do grupo Tavares de Melo, e deu a tacada final em 2009, com a compra do controle dos ativos da paulista Santelisa Vale. Assim, em dez anos, tornou-se o 2º maior grupo sucroalcooleiro do país.

Maior exportador global de açúcar do mundo, o Brasil é estratégico para essas tradings. No mundo, somente a Dreyfus deve originar nesta safra 7 milhões de toneladas da commodity, sendo 3 milhões de toneladas no Brasil – 20% mais do que há um ano. Em 2006, antes de ser a número 2 em produção, movimentava volumes próximos de 1,5 milhão de toneladas. "O mercado brasileiro cresceu, e nós aproveitamos para ganhar share", diz Enrico Biancheri, diretor-comercial da Biosev.

Do total de 3 milhões de toneladas originadas no Brasil, entre 800 mil e 900 mil toneladas virão da Biosev. "São companhias independentes. Cada uma tem sua estratégia de comercialização", esclarece Biancheri. Nesta temporada, a sucroalcooleira deve produzir 2,050 milhões de toneladas da commodity e o plano é, a partir de 2015, atingir 2,6 milhões de toneladas.

"A Biosev é um importante fornecedor para o grupo. Mas ser grande na produção nos traz um lastro consistente para a política de comercialização. Uma coisa anda junto com a outra", afirma Geld. Há ainda, segundo ele, o que os ativos agregaram em logística. Com a aquisição do controle da Santelisa Vale, por exemplo, a francesa agregou a participação no terminal de exportação de açúcar do Guarujá – joint venture com a Cargill. "A Dreyfus está também presente em ativos de refino de açúcar nos EUA (Imperial Sugar). Ainda, na China e na Indonésia, com parceiros locais", acrescenta Geld.

Somando-se a produção própria de açúcar das "tradings usinas", o volume não passa 10 milhões de toneladas. Isso já considerando os 6,3 milhões de toneladas que serão produzidas nesta safra pelas unidades sócias da Copersucar, a líder entre as tradings de açúcar atuantes no Brasil. Somando-se os volumes de não sócias, a comercializadora de capital nacional prevê movimentar 8,7 milhões de toneladas da commodity, ante os 7,6 milhões da safra passada.

Analistas acreditam que o nível de concorrência em trade de açúcar no Brasil mudou nos últimos três anos com o avanço vertiginoso da Copersucar. Depois que deixou de ser uma cooperativa e passou a Sociedade Anônima, na safra 2008/09, a empresa saiu de uma originação de 3,2 milhões de toneladas, restrita às então associadas, para 8,7 milhões de toneladas neste ciclo – participação de 33% nas exportações brasileiras de açúcar.

Desde 2006 posicionada em ativos de cana-de-açúcar no Brasil, a americana Cargill prevê originar neste ciclo 3,5 milhões de toneladas da commodity de usinas parceiras no país. A empresa não divulga quanto desse volume vem das suas duas unidades próprias (SP e GO), mas evidencia que ter acesso à matéria-prima é um ponto importante, no entanto, não é o objetivo principal. "O mais crucial é conhecer mais como funciona a cadeia para tomar as melhores decisões em trading", explica o diretor do negócio açúcar e etanol da Cargill, Marcelo Andrade.

Globalmente, a americana movimenta entre 10 milhões e 12 milhões de toneladas da commodity. "Além da originação direta das usinas, a Cargill movimenta outros 4,5 milhões a 6,5 milhões de toneladas de outras tradings no Brasil ou de volumes recebidos via entregas brasileiras na bolsa de Nova York", acrescenta o gerente geral de trading de Açúcar e Álcool no Brasil, Alexandre Leite.

Para algumas comercializadoras ainda não posicionadas em ativos de cana-de-açúcar, a concentração na venda da commodity é um entrave ao aumento do market share. Mas, comprar ou construir usinas para garantir matéria-prima tem um preço alto, diz o diretor da trading Sucden, Jeremy Austin. "Para ser um player no Brasil é preciso ter, pelo menos, 10 milhões de toneladas de capacidade de moagem de cana, o que demanda cerca de US$ 1 bilhão. É muito para colocar na mesa", diz Austin.

Segundo ele, a empresa, que tem participação aciónária em três usinas de açúcar na Rússia, movimenta no mundo 9 milhões de toneladas de açúcar, sendo 5 milhões no Brasil. "Nos próximos 28 meses podem surgir boas oportunidades de compra de ativos no Brasil", acredita Austin. Segundo apurou oValor, a trading sonda se posicionar em ativos de cana no Brasil e estaria conversando com a usina Florálco (SP), em recuperação judicial. O executivo da Sucden não comentou.

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Fonte: Valor | Por Fabiana Batista | De São Paulo

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