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Território aberto para descobertas e experiências » Produção de uva e vinho se espalha por várias regiões do Estado e do Brasil

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O selo de Indicação Geográfica de uma região produtora e o enquadramento dos produtos nos padrões de qualidade exigidos pela distinção são a ponta de um processo que não reflete, necessariamente, o panorama geral da viticultura nacional. Basta ver os dados do Cadastro Vinícola feito pelo governo do Rio Grande do Sul, que revelam o perfil do produto gaúcho.

Dos mais de 182 milhões de litros de vinho produzidos no Estado em 2019, pouco mais de 37 milhões são de vinhos finos. O restante é o vinho de mesa, que chamamos carinhosamente de colonial, normalmente vendido em garrafões. Esse produto de custo mais baixo fica distante do paladar esperado pelos apreciadores da bebida.

De toda a produção nacional, 80% ainda é de vinho de mesa, o comum, feito com uvas americanas. O vinho fino, por sua vez, é elaborado com uvas da espécie vitis vinífera, originárias da Europa, específicas para a produção da bebida. Esse perfil vinícola tem uma origem histórica. De acordo com o jornalista Irineu Guarnier Filho, especializado em vinhos e estudioso do assunto, os imigrantes europeus, no século 19, trouxeram mudas de uvas viníferas dos seus países, especialmente as variedades tradicionais na Itália, como as tintas nebbiolo e sangiovese e a branca peverella. Essas plantas, porém, não se adaptaram bem ao solo gaúcho e morreram. As uvas americanas, mais resistentes e adaptáveis, foram a solução para que os imigrantes seguissem produzindo e bebendo seu sagrado vinho de cada dia.

A reconversão dos vinhedos e a dedicação dos produtores ao plantio de uvas viníferas foi possível graças à antiga técnica do enxerto, que tornou possível o cultivo de uvas europeias em qualquer lugar, aproveitando as raízes de uma videira resistente. Esse processo está em curso no Brasil de forma mais intensa, pelo menos, desde os anos 1980, tendo iniciado na mesma serra gaúcha onde reinava o vinho de mesa. Mas ainda há um longo caminho pela frente. Muita gente, de variadas áreas, está dedicada a participar dessa transformação. Com projetos pipocando em todos os cantos do País – já há produção de grandes vinhos no interior de São Paulo, por exemplo -, fica evidente essa tendência. Foi pensando em mostrar essa diversidade que um grupo de amigos criou a plataforma Brasil de Vinhos, um portal cujo propósito é divulgar a colcha de retalhos do vinho brasileiro. "Sabemos que a maior parte da produção nacional é gaúcha, mas queremos revelar que o Brasil é um país de vinhos, divulgar vinícolas e negócios relacionados ao vinho em todo o Brasil, para que as pessoas conheçam e apreciem" comenta a jornalista Lucia Porto, uma das idea-lizadoras do projeto.

No site e nas redes sociais, as vinícolas, mercados e lojas se cadastram gratuitamente para compor essa grande vitrine do vinho nacional. Quando o perfil Brasil de Vinhos entrou no ar no Instagram, havia 54 vinícolas cadastradas. Hoje são mais de 140, e a equipe tem o cadastro pronto de 197 vinícolas, que deve entrar no ar enquanto você lê esta reportagem.

Quanto mais se descobre a vocação vitivinícola de cada região, mais atraentes se tornam os negócios inseridos nela. Como em outras áreas do agronegócio, é comum ver membros da família de produtores voltando a trabalhar no ramo. Foi o que aconteceu com o farmacêutico Daniel Panizzi, que tocava o projeto mais importante de sua carreira no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, quando precisou tomar a decisão de assumir a administração da vinícola Don Giovanni, fundada pelos sogros Ayrton e Beatriz, em Pinto Bandeira. "Alguém assumia ou eles venderiam a vinícola. Foi uma mudança e tanto", relembra Panizzi.

O maior desafio tem sido encontrar a vocação do terroir de Pinto Bandeira e apostar nele, levando modernidade ao negócio, sem deixar de lado a tradição familiar "Não queremos mais imitar o estilo de vinho do Chile ou plantar cabernet sauvignon porque todo mundo quer. O papel da nova geração é descobrir quem somos. Já sabemos, por exemplo, da excelência dos vinhos base para espumante que produzimos aqui. Algumas tintas, como a cabernet franc, também se adaptaram bem. Assim construímos nossa identidade e conquistando novos consumidores com um produto de altíssima qualidade que só existe aqui", destaca.

COMO A VITICULTURA ESTÁ DISTRIBUÍDA NO TERRITÓRIO BRASILEIRO

Planalto Catarinense

A Serra Catarinense tem se consolidado, desde o começo dos anos 2000, como produtora de vinhos de altitude. Muitos projetos têm surgido, revelando as potencialidades do terroir que se destaca pela altitude e pelas baixas temperaturas. Destacam-se as cidades de São Joaquim, Caçador e Campos Novos.

Altos de Pinto Bandeira

Os estudos desenvolvidos nessa região pretendem criar uma Denominação de Origem para espumantes produzidos nas partes mais altas do entorno de Pinto Bandeira, que chegam a 700 metros de altitude. As bebidas reconhecidas serão produzidas somente pelo método tradicional, a partir das variedades Chardonnay, Pinot Noir e Riesling Itálico.

Campanha Gaúcha

Última IP a ser reconhecida pelo INPI, em maio, a Campanha é a maior das IPs brasileiras, com uma área de mais de 44 mil quilômetros quadrados, que se espalha por 14 municípios: Aceguá, Alegrete, Bagé, Barra do Quaraí, Candiota, Dom Pedrito, Hulha Negra, Itaqui, Lavras do Sul, Maçambará, Quaraí, Rosário do Sul, Santana do Livramento e Uruguaiana. Um solo pedregoso, de topografia levemente ondulada, com invernos frios e verões quentes e pouca chuva é ideal para a produção de vinhos de alta qualidade.

Altos Montes

A altitude é a característica desta região, a mais alta da Serra Gaúcha. Nos montes que chegam a 885 metros, são cultivadas as uvas para a produção de espumantes e de vinhos tranquilos, brancos e tintos. Com temperaturas mais amenas, a maturação das uvas é mais longa, o que confere uma personalidade única aos vinhos. A área da IP se estende por 174 quilômetros quadrados, entre os municípios de Flores da Cunha e Nova Pádua

Pinto Bandeira

Localizada entre os municípios de Pinto Bandeira, Farroupilha e Bento Gonçalves, esta região tem altitude mínima de 500 metros, além de clima ameno, o que possibilita um ciclo longo da videira, com maturação lenta e colheita um pouco mais tardia. Na área de mais de 81 quilômetros quadrados são produzidos vinhos tranquilos brancos, rosés e tintos, além dos espumantes, considerados por muita gente os melhores do Brasil. Uma curiosidade: somente os espumantes elaborados pelo método tradicional recebem o selo da IP.

Vale do São Francisco

Com cerca de 500 hectares de vinhedos da espécie vitis vinífera, a região de clima tropical semiárido produz uva o ano todo, com ciclo determinado pela irrigação com a água do Rio São Francisco. Os vinhos finos tropicais, tranquilos e espumantes, são produzidos na Bahia e em Pernambuco, no eixo Petrolina-Juazeiro.

Vales da Uva Goethe

Primeira IP registrada em Santa Catarina e única fora do Rio Grande do Sul, a região produz a tradicional uva Goethe, que chegou ao estado no início do século 20. Recebem o selo os vinhos branco e leve branco, que podem ser secos, meio secos ou suaves. Também são produzidos espumantes e licorosos. A região de abrangência desta IP se localiza em 459 quilômetros quadrados entre as encostas da Serra Geral e o Litoral Sul de SC, nos municípios de Urussanga, Pedras Grandes, Morro da Fumaça, Cocal do Sul, Treze de Maio, Orleans, Nova Veneza e Içara

Farroupilha

Essa Indicação de Procedência é exclusiva para a produção de vinhos finos moscateis, incluindo espumantes, vinho fino tranquilo branco, frisante, licoroso moscatel, mistela e brandy. É a região brasileira com maior volume de produção de uvas moscato. A iP se estende por uma área de 379 quilômetros quadrados no município de Farroupilha, com pequeníssimas áreas localizadas em Caxias do Sul, Pinto Bandeira e Bento Gonçalves.

Monte Belo

Uma das menores regiões a receber indicação geográfica, Monte Belo conta com 56 quilômetros quadrados, nos quais cerca de 600 produtores extraem o máximo do terroir para garantir a alta qualidade das uvas. Cerca de 80% da IP fica no território de Monte Belo do Sul, com o restante se dividindo entre Bento Gonçalves e Santa Tereza, próximo ao Vale do Rio das Antas. Os vinhos tranquilos e espumantes elaborados integralmente com as uvas produzidas na região recebem o selo da IP.

Vale dos Vinhedos

Primeira (e única, até agora) região do País a receber o selo de Denominação de Origem (DO), o Vale dos Vinhedos é a região produtora mais conhecida. Para que recebam o selo, os rótulos precisam ser inteiramente produzidos no Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, desde o cultivo da parreira até o envase, com um rígido controle de qualidade e sob um regramento específico. A variedade emblemática para a produção de tintos é a Merlot, com a possibilidade de uso de Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Tannat como auxiliares para corte. Já entre as brancas, a principal é a Chardonnay, com o Riesling Itálico como variedade auxiliar para corte. Já para a elaboração de espumantes, Chardonnay e Pinot Noir são as principais. O Riesling Itálico entra como coadjuvante em cortes.

Fonte: Jornal do Comércio

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