Terra do tatu-bola

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Rodrigo Castro: "Imagem do tabu-bola é explorada sem que um centavo seja revertido para a sua proteção"

No município de Crateús, sertão do Ceará, onde foi levantada a bandeira para fazer do tatu-bola o mascote da Copa do Mundo, o Fuleco, símbolo dos jogos no Brasil, é um ilustre desconhecido. No comércio popular da cidade, em que se vendem de gaiolas para passarinho a roupas e carne de bode, a expectativa entre os camelôs é receber réplicas de "segunda linha" do bichinho de brinquedo quando o grande evento do futebol estiver mais próximo.

Uma pelúcia similar, produzida durante a campanha nacional para promover o brasileiríssimo mamífero da Caatinga a garoto-propaganda dos jogos, deixou de ser confeccionada pelos artesãos locais, que não conseguem mais encontrar no mercado cearense o tecido marrom usado no revestimento, importado da China.

A terra na qual o tatu-bola luta contra a extinção aguarda para conferir o produto oficial da Fifa, produzido a milhares de quilômetros pela indústria chinesa Tongchuang Toys. Com sede na província de Anhui, polo de fabricantes de brinquedos que exporta para todo o mundo a preços mais competitivos devido a fatores como mão de obra barata, a empresa produzirá 1 milhão de mascotes – encomenda que já absorve 80% da sua capacidade produtiva.

Negociado junto à Global Brand Group, responsável pela comercialização das marcas da Fifa, o produto é vendido nas lojas e na internet por preços que variam de R$ 100 a R$ 160. Considerando o menor valor, a pelúcia movimentará algo equivalente a mais de cinco vezes o orçamento do governo federal para a gestão de espécies da fauna mais ameaçadas no país, de R$ 19 milhões em 2014.

"O futuro do animal depende da Copa", alerta Rodrigo Castro, secretário-executivo da Associação Caatinga, entidade que lançou a ideia do mascote, com objetivo de atrair a atenção para a espécie e o lugar onde vive. "Mas a imagem do tabu-bola é explorada comercialmente sem que um centavo seja revertido para a sua proteção", lamenta.

"O apelo ambiental, no caso de parte do lucro ser repassado a uma campanha de sensibilização, seria um diferencial estratégico capaz de aumentar as vendas", argumenta Castro. Procurada pela reportagem do Valor, a Fifa não se posicionou sobre a questão. A entidade tem afirmado que a escolha do Fuleco – fusão das palavras "futebol" e "ecologia"- já desperta maior conscientização.

O único apoio financeiro para a conservação partiu de um patrocinador oficial do evento, a Continental, multinacional alemã de pneus, com subsidiária em Jundiaí (SP). Para cada produto vendido na linha especial alusiva à Copa, R$ 1 é destinado a ações locais para evitar a extinção do animal. Até o momento foram repassados R$ 100 mil.

A iniciativa se desenrola em torno da Reserva Natural Serra das Almas, destinada a pesquisas científicas, educação ambiental e projetos de restauração florestal e tecnologias sociais, como o uso de fornos solares em substituição ao consumo de lenha nativa por comunidades. Com 6,1 mil hectares na chapada da Ibiapaba, divisa do Ceará com Piauí, a área foi criada na década de 1990 com recursos doados pelo americano Samuel Johnson, em gratidão à carnaúba – palmeira regional explorada por décadas para a produção de ceras, base do império industrial da família, a multinacional SC Johnson.

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Tatu-bola: segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza, população diminuiu 30% desde 2002

A reserva ecológica é mantida pela Associação Caatinga a partir do rendimento de um fundo criado pelo empresário em caráter perpétuo, hoje com US$ 2,8 milhões em caixa. A esperança é que os esforços de conservação ajudem a mudar a realidade econômica e social de Crateús. O município se destacou no passado pela produção de algodão, mas entrou em decadência e hoje, com 73 mil habitantes, a falta de alternativas induz à violência urbana e ao consumo de crack, em pleno sertão.

A estratégia tem sido investir em educação, com a chegada de universidades, e atrair pequenas indústrias. "Ter o tatu-bola como bandeira ajuda na retomada do crescimento com menor risco de impactos", afirma Wanderley Marques, secretário municipal de meio ambiente. Para ele, produzir a pelúcia na região, e não na China, "significaria um grande legado, com mais chances de o animal ser lembrado daqui a trinta anos não apenas como um brinquedo de pelúcia".

"Trazer o produto chinês representa, no mínimo, uma perda de oportunidade", analisa Paulo Branco, vice-coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade, da Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo, para quem promover a produção local é chave no processo da chamada "economia verde e inclusiva" e deveria pautar decisões de compra em grandes organizações. No Mundial da África do Sul, em 2010, uma fábrica chinesa ligada à manufatura do Zakumi, o mascote da época, foi obrigada a interromper a produção após ser acusada de más condições de trabalho.

"Esperávamos ganhos mais efetivos para a conservação do tatu-bola em função do uso comercial da sua imagem", lamenta Ugo Vercillo, coordenador de manejo do ICMBio, órgão federal responsável pela gestão da biodiversidade.

A solução virá dos cofres públicos. Em maio, um grupo de especialistas se reunirá para traçar um plano de ação, definir recursos necessários e mapear áreas prioritárias de proteção. A estratégia já existe para outras 307 espécies ameaçadas. De acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), a população do tatu-bola diminuiu 30% desde 2002, com risco de extinção nos próximos 50 anos.

"A perda de habitat, causada pelo desmatamento, foi muito severa nas últimas duas décadas", adverte José Alves de Siqueira, diretor do Centro de Referência para a Recuperação de Áreas Degradadas da Caatinga (CRAD), em Petrolina (PE). "A contribuição da Copa do Mundo seria bastante positiva, se cada gol resultasse em 1 mil hectares de área protegida", propõe o pesquisador, em análise encaminhada a uma publicação científica internacional.

A Caatinga já perdeu pelo menos metade da cobertura vegetal, principalmente devido ao corte de lenha para consumo humano e industrial. O refúgio melhor protegido, entre as sete unidades de conservação habitadas pelo tatu-bola, é a Serra da Capivara, no Piauí. Lá o animal tem a peculiar função de comer insetos nocivos às pinturas rupestres que tornaram o lugar mundialmente conhecido.

"Sem floresta, o mamífero se torna vulnerável à caça, porque não cava buracos para se esconder como fazem as demais espécies de tatu", explica Alves. Ele articula junto ao governo pernambucano a proteção de 70 mil hectares, abrangendo os municípios de Petrolina, Lagoa Grande e Santa Maria da Boa Vista, no oeste do Estado. "A iniciativa é prioritária, pois temos um passivo de área protegida a ser resolvido, ainda mais diante dos impactos das mudanças climáticas no Semiárido", afirma o secretário de meio ambiente, Carlos André Cavalcanti. O projeto da nova área receberá parte dos R$ 6 milhões referentes à compensação ambiental pela construção da Adutora do Agreste.

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Fonte: Valor | Por Sergio Adeodato | Para o Valor, de Crateús (CE)

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