Tempo de redescoberta para os cafés naturais


Secagem de café em fazenda de Espírito Santo do Pinhal, na Mogiana paulista

Os cafés naturais – que não têm a polpa retirada e nem passam por processos de fermentação com água – por muito tempo foram classificados como inferiores aos grãos "lavados" da Colômbia e Quênia, por exemplo. Mas o produto passa por uma "redescoberta" e vem obtendo maior valorização no mercado mundial.

No café lavado, casca e polpa do grão são retiradas e depois o produto permanece em tanque de fermentação com água para eliminar os resquícios da mucilagem, a pele com sabor adocicado que recobre uma das camadas que revestem o grão de café.

A maioria dos países produtores não tem condições de fazer o café natural diante das condições climáticas de umidade, afirma Silvio Leite, juiz internacional e um dos fundadores do "Cup of Excellence", um dos concursos internacionais de maior prestígio para cafés de alta qualidade. Para se produzir um bom café natural é preciso colher os frutos maduros e fazer a secagem de modo adequado, observa.

O Brasil é o maior produtor mundial de café e grande parte de sua produção – 88% -é de café natural. Além do Brasil, poucos países produzem o grão natural, entre eles estão a Etiópia e Iêmen.

Hoje, sabe-se que a amplitude de sabores é maior nos cafés naturais em relação aos lavados, que são mais padronizados, diz Carlos Brando, sócio-diretor da P&A Marketing Internacional. Ele explica que dependendo do tipo de secagem do café natural, há a transmissão de características organolépticas (sensoriais) do grão para a xícara de café.

Segundo Leite, embora muito complexos, os cafés naturais ainda mantêm, depois da colheita, por sete a oito meses o máximo de sabor, com acidez mais equilibrada frente aos lavados. "A resposta tem sido fantástica", diz, referindo-se ao consumidor.

Nos últimos cinco anos, os cafés naturais ganharam maior participação nos "blends" do torrado e moído, observa Brando. Por ser mais encorpado, o natural é matéria-prima adequada ao espresso.

Boa parte desse "renascimento" dos cafés naturais, lembra Brando, deve-se a concursos de qualidade, que começaram com o cereja descascado. Nesse caso, casca e polpa são retiradas e o grão seca de forma natural ou mecanicamente. Nos concursos de cafés naturais, há uma seleção dos melhores grãos brasileiros, que disputam uma etapa internacional. Depois, os melhores produtos vão a leilão.

O diretor-executivo da Associação de Cafés Especiais dos Estados Unidos (SCAA, na sigla em inglês), Ric Rhinehart, estima que o volume ofertado de café natural no mundo, que foi de cerca de 40 milhões de sacas em 2012, possa atingir cerca de 60 milhões de sacas em 2023, e mais de 70 milhões de sacas em 2033, quase o mesmo volume de robusta. Para os lavados, a projeção aponta menos de 20 milhões de sacas.

O aumento da demanda por cafés naturais também se deve aos altos preços do lavado, na avaliação de Carlos Paulino da Costa, presidente da Cooxupé, a maior cooperativa de café do mundo, com sede no Sul de Minas Gerais. A Colômbia, maior produtora de cafés arábicas lavados, teve uma redução drástica na produção nos últimos anos, embora se espere uma recuperação nesta safra.

Conforme Costa, nos últimos dois anos houve uma substituição de cafés lavados por naturais nos blends do café industrializado. "Cinco a dez por cento a mais ou a menos de um tipo de café influi pouco no gosto da bebida e reduz o custo [no blend]". Diante do grande aumento do consumo de café espresso no mundo, há demanda pelo café natural brasileiro, que dá corpo ao produto, acrescenta.

A grande demanda do mercado dos Estados Unidos – país onde um café mais ácido e mais fraco é apreciado – pelos grãos lavados foi um dos fatores que promoveram a valorização do produto no mercado mundial, somado ao marketing dos produtores, observa Costa.

Os melhores cafés despolpados da África são atualmente os mais caros do mercado mundial, vendidos por US$ 4 a US$ 7 por libra-peso, afirma Leite. A commodity está em cerca de US$ 1,13 na bolsa de Nova York. Os lavados da América Central têm prêmio de 10 a 30 centavos de dólar sobre a cotação na bolsa. Já os brasileiros naturais podem ter o mesmo valor do cereja despolpado commodity, com prêmios de 3 a 5 centavos sobre o valor na bolsa. Segundo Leite, começa a ocorrer uma mudança de paradigma em relação aos cafés naturais, mas o processo é lento.

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Fonte: Valor | Por Carine Ferreira | De São Paulo

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