Tecnologias ajudam a driblar instabilidade do tempo

Tablet na mão, os monitores de praga do Grupo Amaggi, uma das cem maiores empresas do país e uma das vinte maiores na área de comércio com uma receita bruta de R$ 6,4 bilhões, percorrem cerca de 400 hectares por dia das dez fazendas de soja, milho e algodão da subsidiária Amaggi Agro, no Mato Grosso. Os dados de evolução da planta, de acordo com o período de plantio, a exposição ao sol ou à chuva e a resistência às doenças, são enviadas por GPS para avaliação dos agrônomos e para abastecer um banco de dados criado há dez anos.

Se não podem fazer a gestão do clima nem do mercado, os técnicos da Amaggi Agro se aprimoram na gestão de custos e do tempo. Cada colheitadeira tem um centro de custo. Cada operação também. A tecnologia complementada por máquinas de plantio e colheitadeiras de última geração rende resultados significativos. A produtividade teve ganhos que variam de 6% a 10% dependendo da cultura e do ano. Houve aumento de 78% de eficiência no plantio e de 25% na colheita com redução no consumo de combustível e na emissão de gases do efeito-estufa. "Números gerenciais nos balizam em tudo, de quando plantar a quanto produzir", diz Pedro Valente, diretor da Amaggi Agro, que produz 819 mil toneladas de grãos por ano.

Tecnologia e manejo são apontados por especialistas como caminhos indispensáveis para elevar a produtividade no campo e fazer frente aos desafios climáticos – tanto na redução das emissões quanto na preservação dos recursos naturais. Se não é possível chegar ao estado da arte na lavoura, principalmente em um cenário de variações imprevisíveis do tempo, agricultores e pecuaristas buscam ao menos dominar as ferramentas que garantam alguma segurança à produção com impacto na produtividade. "Há tecnologia que aumenta a produtividade, como os transgênicos, a adubação, a agricultura de precisão e a irrigação, outras que garantem a produtividade, como os defensivos cada vez menos tóxicos ao ambiente e à saúde, mas mais eficientes no controle de pragas, além de técnicas de manejo e o uso de máquinas cada vez mais potentes e com menores índices de perdas. Mas é o controle da lavoura por meio digital que está revolucionando o campo", afirma Leonardo Machado, assessor da Superintendência Técnica da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

"A grande inovação agrícola do Brasil é a integração lavoura-pecuária-floresta, que permitirá o cumprimento do compromisso do país em reduzir até 2020 o equivalente a 1 bilhão de toneladas de dióxido de carbono, 80% com a redução de desmatamento e cerca de 170 milhões de toneladas de CO2equivalente com boas práticas agrícolas. As tecnologias permitem triplicar a produção de alimentos sem aumentar a área plantada", diz José Roberto Perez, chefe-geral da Embrapa Cerrados, um dos braços de pesquisa estatal de ponta na oferta de soluções tecnológicas para o agricultor.

O campo virou atrativo de negócio até para empresas mais focadas na cidade. É o caso da Autodesk, líder mundial em software de projeto 3D para entretenimento, manufatura, engenharia, construção e infraestrutura civil. Há três anos, o escritório brasileiro da empresa começou a desenvolver o Agrocard, em parceria com a Tecgraf, de Campinas. O programa, que faz a automatização do mapeamento da lavoura para definir as linhas de plantio, os sulcos e os caminhos do trator sem necessidade de direção manual, reduziu em 20% o consumo de combustíveis e aumentou em 40% a eficiência na colheita de cana-de-açúcar da Raízen, empresa resultante do processo de integração de negócios entre a Cosan e a Shell, com capacidade de produção de 1,9 bilhões de litros de etanol por ano e de 4,2 milhões de toneladas de açúcar, além da geração de 900 MW de energia elétrica a partir do bagaço da cana. Dados da Associação Brasileira de Empresas de Software (ABES) apontam um aumento de 72,5% de aquisição de programas de computação para o setor agrícola de 2010 a 2012. "Ainda tem muita coisa para fazer no campo", diz Cláudio Pinto, gerente de território da Autodesk.

A Dow AgroSciences, subsidiária da Dow Química, que investe em novas variedades de sementes de soja, milho, hortifrutigranjeiros e cana-de-açúcar e na melhoria de pastagens com novos cultivares e no desenvolvimento de herbicidas para o controle de pragas, também criou o projeto pecuária sustentável, uma espécie de guarda-chuva das iniciativas que buscam promover o aumento da produtividade do rebanho bovino do país de forma sustentável. Em três anos, a lucratividade das fazendas que adotaram os sistemas propostos passou de R$ 80 por hectare por ano para R$ 210 por hectare/ano.

"O Brasil precisa aumentar 15 milhões de hectares de produção e isso só pode vir da área de pastagem degradada. Não há outra saída que não pela tecnologia", diz Roberto Risolia, líder de sustentabilidade e desenvolvimento de negócios de pastagens da Dow AgroSciences

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Fonte: Valor | Por Paulo Vasconcellos | Para o Valor, do Rio

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