Taxa de juro real é a maior desde 2008

Fonte: Valor | Eduardo Campos

A taxa de juros real oscila acima de 7% desde meados da semana passada, e na última medição, ontem, marcou 7,07%, maior desde 16 de dezembro de 2008. De fato, o juro nominal descontado da inflação vem em trajetória ascendente desde a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).

Isso mostra um ganho de força da política monetária, já que de nada adianta subir os juros nominais, se a taxa real não acompanha tal movimento.

Isso foi observado após a reunião de março do comitê, quando os juros reais caíram, mesmo depois do ajuste de meio ponto percentual na taxa Selic.

Dois fatores têm de ser observados aqui. O primeiro é a expectativa de inflação, pois quanto maior menor o juro real para um mesmo juro nominal. Ou seja, se a deterioração das expectativas de inflação corre mais rápido do que a alta de juros, a ação de política monetária tem efeito nulo (isso ocorreu em março).

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O outro ponto é menos palpável. Segundo o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otavio de Souza Leal, tal comportamento do juro real é sinal claro de que o canal das expectativas esta trabalhando. Isso também reforça o quão relevante é o controle dos prognósticos de preço dentro da política monetária.

Na avaliação de Leal, essa melhora na expectativa de inflação em 12 meses (utilizada no calculo do juro real) explica parte desse movimento da taxa real de juros. Outra fatia do movimento é a resposta do mercado à mudança de discurso do Banco Central (BC) desde sua reunião de abril, quando ficou clara a intenção de subir a taxa de juros nominal pelo tempo que for necessário.

Segundo o economista, esse "componente expectativa" é detectável pelo seguinte fator. O recuo nos prognósticos para inflação em 12 meses foi mais acentuado do que as projeções para a inflação até o fim do ano.

Vamos aos números: o IPCA projetado em 12 meses fez máxima de 5,53% em 28 de janeiro. No último Focus, de 27 de março, essa taxa tinha caído para 5,04%, Uma queda de 0,49 ponto percentual.

Já o IPCA estimado para 2011 fez máxima de 6,37% no Focus de 29 de abril. Agora, a mediana cedeu para 6,23%. Queda de 0,14 ponto percentual.

Igualando os horizontes de comparação. O IPCA em 12 meses abriu maio em 5,27%, o IPCA para o fim do ano marcava 6,33%. Quedas de 0,23 ponto percentual e 0,10 ponto, respectivamente.

"A inflação em 12 meses caiu mais do que a expectativa de curto prazo. É o canal das expectativas funcionando", disse Leal.

Mais uma evidência desse canal de expectativas, segundo Leal, é que, mesmo com um aperto de juros menor (a alta de abril foi de 0,25 ponto), o BC conseguiu efeito maior na taxa real de juros do que o registrado durante o mês de março, quando o aperto na taxa básica fora de meio ponto percentual.

O economista-sênior do Espírito Santo Investment Bank, Flávio Serrano, reconhece a importância dessa alta nos juros reais, mas ressalta que muito da melhora não está pautada em uma evolução consistente da inflação.

De acordo com Serrano, a queda das projeções em 12 meses capta essa melhora da inflação no curto prazo.

Variações de IPCA próximas de zero estão contratadas para os próximos meses e isso influencia a modelagem das expectativas.

Para o especialista, o movimento seria mais consistente se, além da inflação em 12 meses, o IPCA projetado para o fim de 2012 também estivesse em firme movimento de baixa. Algo que não está acontecendo. Essa mediana captada pela pesquisa Focus segue em 5,10%, máxima para o ano.

Para Serrano, houve uma melhora no cálculo dessa medida do juros real. Mas não dá para falar, ainda, em mudança de percepção.

Isso ficará mais claro conforme essa melhora de curto prazo sair do radar. E qual será a composição entre as expectativas e taxa de juros conforme a autoridade monetária avança no ciclo de alta da Selic.

Passando para o pregão de segunda-feira, o volume na bolsa, câmbio e juros foi limitado pelo feriado que manteve Wall Street e Londres inoperantes.

Colocando o foco no câmbio, as vendas se acentuaram no fim do pregão, junto a um súbito aumento no volume, que ajudou o giro do interbancário a marcar US$ 1,3 bilhão.

No fim da jornada, o dólar comercial apontava baixa de 0,49%, a R$ 1,593, menor cotação desde 3 de maio. No mercado futuro, o contrato para junho marcava perda de 0,37%, a R$ 1,589. E o dólar para julho também recuava 0,37%, a R$ 1,6015, antes do ajuste final.

Os vendidos, pelo visto, continuam impondo sua vontade e isso deve se repetir hoje.

Eduardo Campos é repórter