Tabela do frete eleva em US$ 2,4 bi custo para exportar grãos, diz Anec

Ruy Baron / Valor

Transporte de soja em MT; tabela de fretes paralisa vendas da safra 2018/19

O estabelecimento de uma tabela para os fretes rodoviários no país gerou um aumento de aproximadamente US$ 2,36 bilhões nos custos logísticos para a exportação de grãos, estimou ontem Sérgio Mendes, diretor-geral da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), durante o Congresso Brasileiro do Agronegócio, realizado pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e pela B3.

"Todo nosso faturamento é baseado em grandes volumes, mas a margem é pequena", disse. No cálculo, ele considera exportações de 74 milhões de toneladas de soja, 27 milhões de toneladas de milho e 17 milhões de toneladas de farelo de soja. A Anec não divulga quais são os custos logísticos totais para exportação.

De acordo com Mendes, esses volumes de exportação já estão comprometidos e o país os enviará ao exterior, mas com custos muito mais altos. "O meu grande medo é que o [Luiz] Fux [ministro do Supremo Tribunal Federal] veja esses números e ache que está tudo bem", afirmou.

O ministro do STF deve decidir sobre os recursos apresentados contra o tabelamento do frete depois do dia 27 de agosto, quando haverá audiência pública para discutir se a definição de preços mínimos para os transportes de cargas pelo governo é legal ou não.

Segundo Sérgio Mendes, ao exportar grãos, o Brasil já parte com desvantagem de US$ 60 por tonelada em relação aos Estados Unidos. "Com tudo certo, a gente já tem essa desvantagem de US$ 60 por tonelada, mas como o Brasil faz mais de uma safra, dá uma equilibrada nisso", disse. O estabelecimento de uma tabela de fretes mínimos rodoviários adiciona mais US$ 20 por tonelada a essa desvantagem, afirmou.

Diante da alternativa aventada de compra de frota própria para escoar a produção, Sérgio Mendes disse que para atender o volume a ser movimentado, as grandes tradings, ADM, Bunge, Cargill e Dreyfus, teriam de adquirir 4 mil caminhões cada uma, com gastos estimados em R$ 700 mil por carreta, somando cerca de R$ 2,8 bilhões em investimentos.

"Isso para as ABCD. Para as menores, é falência", disse Mendes. "Há muita empresa comprando, e essa despesa cairá na mão do produtor", acrescentou ele.

Além de elevar os custos de exportação, o impasse em relação à tabela de fretes está paralisando os negócios envolvendo a safra 2018/19. "É um cenário em que a gente deveria estar aproveitando a demanda da China, mas não estamos. A China ainda depende muito da soja americana e vai acabar chegando a um acordo com os EUA. Os EUA fecham todas as compras e vai acabar sobrando pouca exportação para o Brasil", avaliou.

Bartolomeu Braz, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja do Brasil (Aprosoja), disse, também no evento da Abag, que a tabela de fretes tem dificultado a precificação de soja no mercado futuro e diminuído as operações de barter – troca de insumos por grãos – para a safra de soja 2018/19. Segundo ele, as operações de troca estão hoje em cerca de 17% da safra, quando o normal seria estar entre 35% e 30%. "O tabelamento do frete tem inviabilizado os negócios futuros", disse.

Murilo Parada, presidente da Louis Dreyfus Company Brasil, confirmou que a comercialização de insumos via barter está travada por causa da tabela.

Na avaliação de Braz, a situação faz tradings e produtores ficarem sem parâmetro para negociar. Para ele, o tabelamento pode resultar em menor aplicação de tecnologia na safra, afetando a produtividade. "Sem barter, não temos crédito suficiente para estabelecer a safra. Mas estamos apelando às instituições financeiras", acrescentou.

Rui Rosa, superintendente de agronegócio do Banco do Brasil, afirmou, em relação ao barter, que a instituição "está preparada para atender a demanda". Também no seminário da Abag, ele disse que a tabela de fretes pode gerar novos investimentos. "[A tabela] trouxe o pensamento de ter frota própria. Aquilo que não estava no radar [das empresas] passa a ser pensado. O ponto é que a dúvida sobre o frete gera incerteza para o produtor".

De acordo com Carlos Aguiar, diretor de negócios do banco Santander Brasil, os financiamentos aos produtores estão sendo "alongados até que se normalize o transporte" da safra.

Para Braz, da Aprosoja, a tabela pode impedir o aumento de área plantada com soja na safra 2018/19, apesar da demanda aquecida. "Todo o ano, a área de soja cresce entre 3% e 4%. Mas, com essa questão do frete, acho que permaneceremos na mesma área do ano passado", disse. A avaliação vai na contramão das principais consultorias que preveem avanço ao redor de 1 milhão de hectares no novo ciclo, 3% a mais que os 35 milhões de hectares de 2017/18.

Apesar das incertezas, José Roberto Mendonça de Barros, sócio-diretor da MB Associados, mostrou otimismo. "O que não é possível, não acontece. Essa tabela não é possível", disse durante o seminário. "O agronegócio cresceu 11,5% nos últimos 4 anos e não tem ninguém desesperado por falta de dinheiro. É o único segmento que não perdeu o pique de crescimento no Brasil", observou.

Por Kauanna Navarro | De São Paulo

Fonte : Valor